EXPECTADOR
ATIVO
LUCIANO ARRUDA
Prefacio.
Uma das minhas maiores diversões na vida é ouvir música, principalmente música ao vivo, então ir a shows sempre foi uma das coisas mais legais para se fazer, e já fui a vários e sempre que surge nova oportunidade continuo indo.
Ir a estes shows me fez viver coisas bem divertidas, e algumas nem tanto, percebi então que essas histórias quando por mim contadas agradavam as pessoas, e pensei, porque não registrar tudo isso em um humilde livro?
Todas as histórias aqui presentes são reais, tudo bem posso ter errado uma ou outra coisa quanto às músicas tocadas, ou condições climáticas dos dias que ocorreram, mas não tenho memória de aço, e alguns desses shows aconteceram já há mais de dez anos.
Sempre adorei ler resenhas de shows em revistas ou jornais e saber a opinião dos jornalistas e comparar com o que eu pensava, então pensei também comigo, porque não resenhar os shows da minha maneira?
Em nenhum momento pensei em ser melhor que jornalistas ou críticos musicais, mesmo porque nem estudei para isso e seria muita presunção da minha parte pensar que poderia ser melhor que alguém nesse sentido, sou simplesmente um amador que resolveu contar suas historinhas vividas nesses vários anos de shows, e quem sabe divertir meu leitor da mesma maneira que me diverti escrevendo.
Como o livro não foi revisado, devem haver milhares de erros de português, mas creio que o conteúdo deve estar minimamente compreensível, me desculpem por isso.
Tudo que foi escrito aqui representa somente minha opinião pessoal, não ganhei nada para falar bem de ninguém, e mesmo se falei mal de alguém não foi nada pessoal. Para qualquer esclarecimento estou disponível no email:
luciano_king2000@yahoo.com.br
Gostaria de agradecer algumas pessoas que tornaram a realização do livro possível, e se tornaram personagens importantes nessas páginas.
Organizei os agradecimentos por setores para me facilitar, se esqueci de alguém, por favor, me comunique ( coloquei aqui somente pessoas que foram em algum show comigo).
Minha família:
Manoel, Adriano, Severino, Marlene, Roberto, Marcelo.
Sion:
Leonardo, Leo (espinha), Alexandre, Spencer, Michel, Fabio, André, Zé, Flavio (magrão), Alexandre(gordo), Klaus, Fabiano.
São Luis:
Daniel, Moisés, primo do Moisés, Fernando(Gary), Thiago, Isis, Samantha, Alex, professor Maurício, Bráulio, Cláudio, Elifa, Erivelton, Leonardo, Marco Aurélio, Marcelo, Fuí, Daniela.
Holy Dust:
Michel, Divera, Ricardo, Hernando, Carlos, Paulo.
Jucesp:
Boninha, Fernando (louco), Fernando (cabeludo), Junior, Chiquinho, Luciana, Miguel, Nerds, André, Mirandinha, Bona, Alexandre, Rafael ( John Lennon), Gustavo, Alexandre ( do dr. Jorge), Marcos.
Uninove:
Jefferson, Jhonatan.
Diversos:
Jaqueline, Michele, Fábio (Manowar), Cleber, Alex, Adriano (boi), Jussania, Luciana, Sarah, pessoal da Galo Metal do show do Morbid Angel, argentinos do show do Exodus( porra infelizmente perdi os contatos de vocês), Kevin, loira do show do Sepultura, os loucos da estação do show do Venom...
E também a todos que estiveram comigo em algum show, seja lá qual foi ele, e por algum motivo esqueci-me de citar aqui, a idade chega e a memória falha, é foda.
Esse livro é inteiramente dedicado a todos aqueles que de cima do palco, ou ao meu lado me proporcionaram momentos tão legais nos diversos shows que assisti.
Em memória a maior voz que já pisou na face da terra, o mestre do Heavy Metal, Ronnie James Dio, descanse em paz e muito obrigado por todos os momentos felizes que me proporcionou e continuará proporcionando com sua impecável obra.
Long Live Rock And Roll!!!!
São Paulo 11 de setembro de 2010.
Ramones – Olympia, São Paulo 10/05/1994.
Às vezes algumas coisas, estão já marcadas de algum modo para acontecer sem que se perceba como, pois bem pensei em escrever sobre como foi minha primeira ida a um show de rock, mas antes disso comecei a me lembrar de como fui parar nesse universo que mudou para muito melhor toda minha vida.
Muitas pessoas começam a ouvir determinado tipo de música por influência seja ela de parentes, amigos, vizinhos ou da mídia, mas no meu caso a coisa aconteceu mesmo do nada, sem esse empurrão por parte de outros.
Recordo-me que meu primeiro contato com o rock, foi visual, em 1983 o Kiss veio se apresentar aqui em São Paulo, e isso causou um grande reboliço na mídia em geral, apesar de muito novo me lembro perfeitamente das revistas nas bancas de jornal, e de algumas imagens na televisão, que me deixavam ao mesmo tempo intrigado e maravilhado, afinal não tinha a menor idéia do que se tratava aquilo tudo.
O tempo passou, e nesse período eu realmente não tinha interesse em música, embora se ouvisse música todo tempo aqui em casa isso era uma coisa que realmente não me tocava de maneira alguma.
Meus pais nunca ouviram rock em casa, onde eu estudava o pessoal era mais ligado em samba e música techno, duas coisas que também não me agradavam, e também não tinha nenhum parente vizinho ou sequer conhecido que escutava o estilo.
Já nessa época eu era muito ligado em desenhos de caveiras, e coisas macabras em geral, nunca notei de onde veio isso, mas o fato é que como todo garoto de dez anos na época eu colecionava figurinhas, e além dos clássicos álbuns com jogadores de futebol eu tinha um chamado “Overdose” que trazia nas figurinhas sempre desenhos de monstros e afins.
A estória toda começa aí, certo dia estava eu em um começo de noite em casa colando algumas figurinhas nesse álbum, a TV como sempre estava ligada, nesse dia no canal Cultura, que era um dos poucos que sintonizavam por aqui, pois bem daquele aparelho preto e branco saiu o som que para sempre mudou minha vida.
Naquele ano de 1988 o Metallica tinha uma apresentação em São Paulo, e por isso o programa que passava na emissora esse dia resolveu mostrar o clipe da música One. No momento que ouvi o nome Metallica, me veio a cabeça que isso era o nome de uma das figurinhas que havia no álbum, esse fato fez com que eu parasse de colar e passasse então a prestar atenção aquela música. No momento em que a canção fica pesada eu simplesmente paralisei na sala, nunca havia ouvido coisa semelhante, aquilo realmente mexia comigo de algum modo inexplicável, me trazia uma alegria interior poucas vezes experimentada anteriormente, aquilo era amor a primeira vista.
Fiquei com aquela melodia presa na cabeça por algum tempo, e em uma visita a uma loja de departamentos reparei pela primeira vez a seção de discos, enquanto meu pai escolhia um disco para comprar, eu notei em uma das prateleiras aquele disco com uma estátua da justiça na capa, e na mesma prateleira vários outros com capas maravilhosas que me prendiam totalmente a atenção, notei que muitas delas existiam no meu velho álbum de figurinhas, e notei naquele momento também que eu precisava ouvir essas músicas, ali a paixão já se apossava de minha mente totalmente.
Naquela época eu tinha um radinho de pilha branco, daqueles com um auto-falante integrado, que era meu companheiro para ouvir jogos de futebol. Passei a ficar mudando de estação a todo momento tentando achar mais uma vez, aquela música maravilhosa, mas realmente não obtinha sucesso.
Certo dia na escola estava colando mais algumas figurinhas no pátio em meu já quase completo álbum, quando um garoto mais velho que eu se aproximou e começou a puxar conversa. Ele disse que tinha achado o álbum muito legal e que tinha um primo que tinha alguns discos com aquelas capas das figurinhas, sem dúvida eu fiquei maravilhado em ouvir aquilo, e ficamos um tempo conversando sobre como eram legais aquelas caveiras, monstros e mortes.
Logo fiquei amigo do garoto, e como ele também tinha o álbum ficávamos sempre discutindo sobre isso nos recreios e na saída da escola. Numa sexta feira ele me disse que iria visitar os tios, e se encontraria com o primo, e na ocasião iria pedir para escutar os discos também, aquilo era sem dúvida uma esperança para mim, de finalmente me aproximar definitivamente do rock e do metal.
Para minha alegria na segunda feira seguinte, esse meu amigo trouxe uma coisa que foi muito preciosa para mim durante um bom tempo, era uma fita cassete com várias faixas gravadas, infelizmente sem o nome das músicas, eu ficava ouvindo isso direto no aparelho de som de casa, um dia a dita até enrolou de tanto ser executada.
Após essa primeira aproximação eu passei a conhecer as pessoas que curtiam esse tipo de som na escola, nenhuma delas infelizmente era da minha classe, então eu tinha somente a hora do recreio para conversar com elas, e uma delas era especial para mim, era uma garota ruiva, que não sei o nome, mas habita minhas fantasias até hoje.
Após a escola foi a hora de fazer amizade com alguns skatistas que andavam em uma praça perto de casa, com eles acabei conhecendo muitas coisas legais como Anthrax, Exodus, Suicidal Tendencies, D.R.I, que por muito tempo foram as bandas que eu mais curtia, mesmo porque eram as únicas que eu tinha gravações, vindo sempre das fitas cassete presente dos skatistas.
Mais tarde já familiarizado com o som comecei a comprar revistas, e a Rock Brigade, era a minha favorita, nela vi a propaganda do programa Backstage, que passou a ser sagrado para mim, todo domingo escuto, com essas duas fontes fui aprendendo cada vez mais, e conhecendo bandas novas para mim que em pouco tempo passaram a ser minhas favoritas.
Durante os sábados nessa época eu costumava sempre sair para dar umas voltas pelo centro da cidade sozinho, tipo 13 ou 14 anos e um dia por acidente descobri a Galeria Do Rock, eu sempre freqüentava aquela galeria para jogar fliperama, mas sempre no subsolo, em certo sábado resolvi subir para os andares superiores para ver o que havia, e sem querer conheci o paraíso, em que gastava todo dinheirinho que economizava do lanche da escola, ou por ventura conseguia pedindo para meus pais.
Bem eu agora tinha fontes de informação, tinha várias fitas cassete gravadas por amigos, ou do rádio mesmo, e tinha também alguns poucos discos que passaram e ser meus presentes de natal e aniversário sempre, aliás, o primeiro disco que tive foi o primeiro do Iron Maiden, comprado no Extra hipermercado com um dinheiro que fiquei juntando por um tempão, eu até dormia com a capa daquele disco de tanto que gostava. Mas ainda faltava um detalhe, assistir um show ao vivo de alguma das bandas que curtia...
Havia duas coisas na época que me impediam de assistir shows, primeiro minha idade, já que era menor, e não poderia ir sozinho, e a mais grave que era o preço nada amigável dos ingressos, além do mais o shows não eram comuns como hoje em dia. Lembro-me da agonia que foi ter o Iron Maiden, ou o Metallica tocando aqui sem que eu pudesse ir, teve ainda o Rock in Rio de 1990, mas esse pelo menos eu pude assistir pela TV, com uma imagem péssima, mas o que interessava era o som.
Meus dias de agonia sem show estavam começando a chegar ao fim em 1993, quando junto com um amigo fomos à gravação de um programa de rádio, em que se apresentavam bandas ao vivo, não era um show ainda, mas já era uma prévia do que viria pela frente.
No ano de 1994 tudo começou a mudar, eu passei a estudar a noite, e trabalhar durante o dia, finalmente tinha o meu dinheiro e podia pensar em ir a algum show. Assim que vi o anúncio do show do Ramones na cidade fiquei animado com a possibilidade de ir até lá, mas uma coisa quase me impediu de vez.
Durante um telejornal que minha mãe assistia foi noticiado que um show dos Ramones dois anos antes terminara em confusão, com brigas e até um bomba arremessada na platéia, lógico que minha mãe não via com bons olhos eu assistir a um show desses, ainda mais sozinho.
Assim que soube do preço dos ingressos, descobri que poderia comprar com meu salário um ingresso de pista, e fiquei então pensando o que faria para convencer minha mãe, fugir talvez, dizer que iria a alguma festa, ou estudar, fiquei planejando isso por um longo tempo até que veio a boa notícia.
Meu amigo que havia ido ao programa de rádio comigo, e também estudado na minha antiga escola, chegou certo dia em casa dizendo que havia comprado um ingresso para esse show, porém no setor C, que eram umas mesas na casa de shows. Ouvindo aquilo consegui convencer minha mãe a ir também, desde que fosse junto com meu amigo e ficasse também no setor C. Aí vinha outro problema, esse setor era mais caro e meu salário não poderia pagar a mensalidade da escola e o ingresso, pensei em dar calote na escola para pagar no mês seguinte, mas mesmo assim não daria, cheguei até a pensar em vender o CD do próprio Ramones, que era um dos poucos que tinha, enfim estava encrencado com isso, até que fui honesto com meus pais e pedi o dinheiro que completava o preço do ingresso, prometendo pagar no mês seguinte (lógico que eles nunca aceitaram esse pagamento, mesmo eu insistindo em pagar).
Agora eu finalmente tinha o ingresso nas mãos, e me restava somente aguardar o tão esperado dia, que parecia não chegar nunca. No trabalho, na escola, em meus sonhos só conseguia pensar nisso, aquilo começava a me deixar louco, já que eu ouvia o único CD dos Ramones que tinha (Loco Live) a todo instante que estava em casa.
Enfim o dia havia chegado, como comprei o ingresso posteriormente ao meu amigo iria ficar em uma mesa separada, mas isso não tinha a menor diferença, o importante seria estar lá. Meu amigo havia comprado o ingresso junto com um primo dele e mais dois outros conhecidos, combinamos de ir de ônibus todos juntos após minha saída do serviço (eu era o único que trabalhava). Foi então que as coisas começaram a complicar de novo, já que no dia anterior foi anunciada uma greve de ônibus na cidade. Felizmente o pai de um dos garotos se propôs a nos levar de carro, porém era somente um carro para sete pessoas, e no sorteio eu fui um dos que tive que ir no porta malas.
O trânsito era terrível aquele por conta da greve, eu estava realmente desconfortável naquele porta malas, mas isso pouco importava porque estaria prestes a realizar um sonho. Poucos dias antes eu havia comprado uma camiseta especialmente para a ocasião, era por sinal uma camiseta do programa Backstage.
Finalmente após um tempo acima do esperado chegamos ao Olympia, que seria o local do show, eu estava maravilhado com tudo aquilo, minhas pernas tremiam na fila, naquela época era muito comum haver ataques de “carecas” em shows, especialmente em shows de bandas como o Ramones então cada pessoa com cabeça raspada que passava era motivo de pânico.
Estava finalmente dentro do recinto na minha mesa, que era ocupada além de mim por um casal e um gordão sem camisa que bebia pra caramba o tempo inteiro. No dia haveria um show de abertura, da banda Inocentes, que por coincidência era uma das bandas que eu assistira naquele programa de rádio, o show foi até legal, mas eu queria mesmo a atração principal.
Eu simplesmente não resistia mais, a expectativa era imensa, e eu estava quase explodindo em ansiedade, coisa certamente notada pelo gordão que até me ofereceu cerveja, vinho, uísque e tudo mais que ele tomava, porém naquele instante eu realmente não estava a fim de beber nada, além do mais eu tinha 16 anos e havia começado a beber a pouco tempo, uma lata de cerveja ou gole de qualquer coisa me deixaria certamente inapto para ver o show por completo.
Assim que as luzes se apagaram e começou a tocar a introdução do show, senti como se o mundo parasse naquele instante, as luzes apagadas o som da introdução misturado aos gritos da multidão, aquilo tudo era perfeito para mim, com toda a voz que tinha eu berrava “Hey Ho Let’s Go” que logicamente era o grito de todas as vozes presentes na casa, assim que cessou a introdução as luzes se acenderam e o baixista CJ gritou no microfone, one, two, three, four... Dando início aos primeiros acordes de Durango 95 minha vida mudava de novo, para sempre.
Logo na seqüência Teenage Lobotomy fez com que eu cantasse pela primeira vez, assistia aqueles quatro caras no palco como se nada mais existisse no mundo, tudo era maravilhoso, as pessoas dando mosh na platéia, a performance da banda, o som, o gordão que subia na mesa na mesa e jogava cerveja para todo lado, e a seqüência maravilhosa de clássicos tocados um após outro.
Psycho Therapy, Blitzkrieg Bop, (Do you remember) Rock and Roll Radio, I Believe In Miracles, enfim eram clássicos atrás de clássicos, que me levavam a loucura total, durante a introdução de Rock and Roll High School, me lembro que eu parecia possuído por algum tipo de espírito, já que meu corpo já agitava sozinho, sem o meu comando, mesmo em temas mais lentos como Poison Heart, ou Pet Semetary, era certamente o espírito do rock que agora possuía de vez o meu corpo.
Naquela noite eu tive um orgasmo de mais ou menos uma hora e meia, que terminou assim que o último acorde de Beat On the Brat foi executado, e a voz de Joey Ramone anunciava uma boa, que certamente não teria como deixar de ser.
Eu estava todo quebrado, meu pescoço doía demais, meu corpo inteiro, aliás, meus ouvidos ouviam um grande zumbido, eu não tinha voz para falar, e ainda por cima perdi o sorteio de novo e voltei no porta malas, mas quer saber naquele dia eu era a pessoa mais feliz do universo, e felizmente essa situação se repete várias vezes quando ainda vou assistir aos shows, talvez nunca como naquela vez, mas ainda continua sendo uma coisa mágica mesmo após todos esses anos.
O espírito realmente não saiu desse corpo, e acho que nem o maior dos exorcistas vai conseguir fazer isso acontecer.
Phillips Monsters of Rock – Estádio do Pacaembu, São Paulo 27/08/1994.
Era um domingo normal, como vários outros, e eu estava sossegado a noite escutando o programa Backstage no rádio, na época esse programa passava aqui em São Paulo, em uma rádio que hoje já nem existe mais, chamada 97fm, o Backstage ainda existe, e por sinal eu ainda escuto todo domingo, mas isso é outro papo.
Estávamos em algum dia do ano de 1994, eu tinha dezesseis anos e já havia assistido ao show dos Ramones e do Megadeth, ambos no Olímpia, quando escutando o rádio ouvi o que viria a mudar toda minha vida, era o anúncio da realização do Phillips Monsters Of Rock, nossa na hora quase tive um treco, porque afinal de contas eu teria a chance de assistir a um festival de rock, como sempre quis, bem próximo de casa no estádio do Pacaembu, e ainda por cima com aquela escalação: Angra, Dr. Sin, Raimundos, Viper, Suicidal Tendencies, Black Sabbath, Slayer e Kiss, nossa era demais para um moleque naquela idade, tanto que naquela noite nem dormi pensando na grande oportunidade que estava por vir.
No mesmo instante que ouvi a notícia, já tive que ligar para meu amigo Leonardo, que já havia me acompanhado no show do Ramones, e não deu outra, o cara também pirou na possibilidade de assistir o festival, e ficamos combinados de ir juntos até lá, dureza seria aguardar o dia.
Infelizmente onde eu trabalhava ninguém gostava de Rock ou Metal na época, portanto não tive com quem compartilhar naquela tarde de segunda-feira, somente pude fazer isso durante a noite na escola, com meus poucos amigos que curtiam esse som, mas beleza o que importava era eu ir, e não os outros.
Assim que os ingressos começaram a ser vendidos eu já havia separado parte do meu salário para aquela compra, que depois valeria muito a pena, a boa notícia era que meu irmão Manoel podia me acompanhar na empreitada, pois a censura permitia isso, então fomos lá em um sábado ao estádio e compramos nossos ingressos, eu acabei pagando os dois, mas tudo bem isso naquele momento não era problema algum, era legal ter ele comigo naquele momento.
O tempo passava e todas as vezes que chegava em casa, colocava algo das bandas para ouvir, seja vinil, cd ou cassete, vale lembrar que em 1994 eu não tinha internet, nem tão pouco computador, então para escutar as músicas ou comprava ou copiava com os amigos, era um pouco mais complicado.
O que mais ouvia era mesmo Slayer, Kiss e Black Sabbath, eu havia acabado de comprar o Alive3 e uma vizinha viajara para os Estados Unidos e me trouxera de presente o Cross Purposes que havia acabado de ser lançado, e mais ninguém tinha, e eu ouvia quase que diariamente aquele cd.
Finalmente o dia vinha chegado, e a ansiedade quase não me deixava mais dormir, já tinha tudo o ingresso, a programação, as músicas das bandas na cabeça, e até a camiseta para o show, que por sinal era uma camiseta do programa Backstage, só faltava mesmo o dia chegar.
Na sexta feira antes do festival a expectativa já era enorme, eu via muitas pessoas passando perto de casa com destino ao Pacaembu, dormiriam lá provavelmente, da minha parte estava tudo combinado, iríamos eu, meu irmão Manoel, meu amigo Leonardo, uma amiga dele, um amigo dele, e mais um amigo meu também chamado Leonardo, que para facilitar as coisas vira Leo a partir de agora.
Na sexta feira minha aula terminava mais cedo, as dez e quinze, nos outros dias era às onze, nesse dia não tive dúvidas, fui correndo para casa, pois precisava descansar para o grande dia. Quando cheguei em casa o barulho que vinha do estádio logicamente me chamou a atenção, conversando com meu irmão ele disse que o Slayer provavelmente havia passado o som por lá, pois dava pra escutar, quando foi que uma coisa muito legal aconteceu.
O som começou a ficar mais claro, e descobri que o Kiss estava passando o som, sim eu ouvia claramente, eles estavam tocando Creatures of the night, que foi seguida por Deuce, e seguida pela voz de Genne Simmons dizendo: Boa noite São Paulo... ”Aquilo era incrível os caras passaram o som tocando o mesmo set, que fizeram na noite seguinte, inclusive com todas as falas, coisa de profissional mesmo”.
O dia chegou, naquele sábado acordei muito cedo sem nenhuma reclamação, aliás, para ser sincero eu nem mesmo dormi direito. Tomamos um café da manhã reforçado, pois o dia e a noite seriam longos e maravilhosos.
No horário marcado o pessoal chegou em casa, e fomos todos com destino ao glorioso estádio municipal Paulo Machado De Carvalho, eram nove e meia da manhã, e os portões abririam as dz, com o primeiro show previsto para as duas da tarde.
Já na fila na Praça Charles Miller, tudo era alegria, parecíamos crianças na fila de uma loja de brinquedos, e poucos minutos após a abertura dos portões lá estávamos, dentro do estádio, prontos para uma overdose de Metal e Rock And Roll.
Dentro do estádio notamos uma coisa muito legal, haviam coberto o gramado com uma espécie de tapete, aquilo era muito legal porque dava para rolar, saltar, dar cambalhotas, coisas que eu e vários presentes faziam a todo tempo, o ambiente não podia ser melhor.
Alguns minutos apenas após a abertura dos portões o Dr. Sin entrou no palco para passar o som, tocaram dois clássicos Whole Lotta Rosie do AC/DC e Rock and Roll do Led Zeppelin, aquilo só serviu para aquecer ainda mais o já incendiado público, um tempo depois o Raimundos e os roadies do Viper fizeram o mesmo, esses últimos tocando Enter Sandmann do Metallica, nem precisa dizer como foi não é?
Chegava perto da duas da tarde horário que começariam oficialmente os shows, tudo era festa, o público se divertia fazendo pirâmides humanas, jogando pessoas para o alto, cantando, rolando na grama, e nem mesmo o cd arranhando do Anthrax que toda vez travava na mesma música tirava a alegria do povo, e nada mesmo a não ser um cancelamento faria isso.
No horário o Angra entrou no palco, a festa agora era total, eles eram uma banda nova que tinham somente um disco e fizeram um show curto, mas que foi legal, principalmente para tirar a ansiedade que pairava no ar, o destaque foi a Time, que tocava bastante no rádio naquela época.
Na seqüência veio o Dr. Sin, com um show também curto, mas em minha opinião um pouco inferior ao do Angra, talvez pelo tipo de som da banda menos direto, no final Andria Busic, foi até o microfone e disse: “esse é o dia mais feliz da minha vida” e olha essas eram as minhas palavras também.
Veio então o Raimundos para o palco, que era uma banda com um som engraçado, e como era moleque cúria bastante as letras cheias de putaria e sacanagem, e fizeram um show bem legal com o público agitando bastante, inclusive com umas rodas gigantes já na pista.
A tarde estava começando a cair quando veio o Viper, uma banda que eu adorava e tinha bastante vontade de assistir, e preciso dizer que não me decepcionei o show foi maravilhoso, um dos melhores de banda brasileira que já vi até hoje, com o público agitando demais e clássicos como Dead Light, Evolution, Living For The Night, e Rebel Maniac, cantada por quase todos no estádio, nesse momento os amigos do Leonardo já sumiram no meio da multidão.
Já era noite quando começou o Suicidal Tendencies, e durante a segunda música, a clássica War Inside My Head, foi a vez do Leo desaparecer, já que o público estava enlouquecido e agitando demais, foi um show bem legal por sinal, mas para meu desepero no final eu estava sozinho, e logicamente preocupado com meu irmão que tinha doze anos apenas, mas eu dividia a preocupação com a ansiedade de ver o Black Sabbath que começaria em poucos minutos.
O tempo entre o Suicidal e o Sabbath foi agonizante, porque não conseguia achar meu irmão, já pensava que ele poderia estar esmagado em algum lugar, mas quando as luzes se apagaram, eu esqueci tudo e entrei em real transe hipnótico, era o Black Sabbath que entraria no palco.
Nos primeiros acordes de Supertzar, o mundo já havia parado para mim, era maravilhoso, e eu estava realmente emocionado, quando a banda finalmente entrou no palco o público junto comigo entrou em êxtase, nossa é até difícil descrever esse momento agora, mas era maravilhoso estar ali cantando e agitando ao som de Time Machine, Children Of The Grave, Children Of The Sea ou Néon Knights. Quando a banda anunciou I Witness, notei que era um dos únicos que conhecia essa música, mas a coisa mudou com os primeiros acordes de Black Sabbath, aquela foi a deixa para a explosão total do estádio, era emocionante demais ver a banda tocando essa música, e na seqüência ainda viria War Pigs, com agitação total, nessa hora esqueci até do meu irmão, esqueci de tudo, o negócio era agitar, agitação que continou com Headless Cross e principalmente Paranoid, clássico máximo do Metal. A banda saiu do palco e pela primeira vez na minha vida vi um estádio inteiro cantar um riff, no caso Iron Man, que foi tocada pela banda, encerrando com chave de ouro com Sabbath Bloody Sabbath, quando acabou me lembro de um cara virar para o meu lado e dizer: “moleque se você me matar agora vou ser uma cara feliz.”, eu também seria feliz, mas respondi que ele ainda merecia ver o Slayer e o Kiss.
Falando em Slayer, voltei a ficar preocupado com meu irmão, o show do Slayer prometia ser violento, minha preocupação aumentou porque nesse momento encontrei o Leonardo, e ele não estava com o Manoel, já comecei até a pensar em uma desculpa para minha mãe, e todos que passavam de maca perto de mim, eu dava uma verificada, mas felizmente não foi ele em nenhum momento, seguindo o conselho do Leonardo, resolvi relaxar pois ele me garantiu que o Manoel estaria na banca de jornal que marcamos de encontrar no final do show.
Já havia passado bastante tempo desde o fim do show anterior, e o público estava impaciente, quando finalmente as luzes se apagaram e o fumaça começou a cobrir o palco, puta que o pariu, era o Slayer, hora de entrar de novo em transe, quando somente as luzes vermelhas anunciaram o clássico Hell Awaits, nossa novamente o mundo parava. O começo não podia ter sido melhor, principalmente pela segunda música, Anthichrist uma das minhas favoritas. O público agitava sem parar em clássicos como Altar of Sacrifice, Captors of Son, Rainning Blood e Seasons in The Abyss, puta que show!!! Eu me matava nas rodas, pulava, cantava, e agitava sem parar, em alguns momentos parecia que teria um acidente vascular de tanto agitar a cabeça, mas não tinha como não fazer isso naquele momento.
Quando a banda voltou para o bis com South Of Heaven, vi uma coisa que nunca mais saiu da minha cabeça, uma roda de imensa com pessoas fumando um único baseado, passando de mão em mão, como em algum ritual de um povo indígena, não participei, mas aquilo ficou marcado, e no palco Angel Of Death encerrava em grande estilo o massacre.
Tenho que confessar que naquele momento bateu cansaço, afinal estava lá o dia inteiro e já era quase meia noite, apesar do festival ser legal não tinha infra estrutura, sem alimentação e banheiros adequados, o conforto era zero, mas o som valia pena e muito, mesmo assim eu resolvi que assistiria o Kiss um pouco mais longe do palco para dar uma descansada, e também já estava sozinho de novo, mesmo porque durante o Slayer, somente se estive amarrado para ficar junto com alguém.
Quando decidi ir um pouco para trás tive uma surpresa agradável, encontrei dois amigos meus Michel e Magrão, que me convenceram a ir lá para frente de novo, e então lá vamos nós.
Durante o trajeto o Michel ficou pelo caminho, e encontramos um lugar legal na frente eu e Magrão para vermos em poucos instantes o Kiss subir ao palco e encerrar aquele dia mágico.
A introdução do show foi uma das coisas mais legais que já vi em toda minha vida, a banda saiu de dentro da boca de uma esfinge, muito legal e criativo mesmo, e o show foi maravilhoso, cheio de clássicos como Deuce, Love Gun, I Love It Loud (sonho realizado de ver ao vivo) e Black Diamond. O espetáculo teve fogos de artifício e tudo que um grande show do Kiss tem direito, encerrando com chave de ouro com Heavens On Fire.
Eu estava mais que satisfeito, mesmo a saída do estádio tendo sido horrível, eu era pura alegria, quase fui atropelado na rua, mas no final meu irmão e amigos estavam mesmo na banca de jornal como combinado, e fui pra minha cama com o ouvindo zumbido, dormir o sono dos justos e sonhar com a próxima edição no ano seguinte.
Histórico!!!!!
Body Count - Olympia, São Paulo 16/05/1995
Na primeira vez que ouvi falar od Body Count, fiquei com um pé atrás, afinal de contas era uma banda formada por um rapper, então provavelmente deveria ter muito de rap no som, estilo que realmente até tentei, mas não consegui curtir.
Certo dia estava ouvindo a saudosa noventa e sete FM (que infelizmente hoje virou radio dance music), quando escutei uma música pesada com um riff sabbático que logo de cara me chamou a atenção, quando ouvi o locutor dizer do que se tratava, quase não acreditei, mas era o Body Count.
A rádio passou a tocar mais músicas da banda, e todas eram muito boas, não tive dúvidas, decidi que compraria o disco, e assim o fiz.
Quando estava na oitava série, poucas pessoas curtiam Rock ou Metal, na escola, na minha classe ninguém, então comecei a conversar com um moleque de outra sala chamado Klaus, cujo pai curtia umas coisas legais e me gravava algumas fitas k7 com sons do Sabbath, Purple, Blue Cheer, Dust entre outras grandes bandas, essas fitas por sinal foram muito importantes para mim, em uma época que não existia a internet, nem a facilidade de adquirir material que temos hoje em dia.
Nos domingos, no Shopping West Plaza era realizada uma feira de discos, e certo dia o Klaus disse que seu pai havia me convidado para irmos lá, aceitei na hora.
No caminho dentro do carro a conversa só foi uma, Rock and Roll, e lá na feira recebi uma grande aula, mas para a minha alegria e desgosto do pai de meu amigo, acabei comprando um único disco, o primeiro do Body Count.
Eu escutei muito esse disco, sabia as letras de cor, e imaginava como seria um show da banda. Dois anos depois eles lançaram o segundo disco, que consegui uma fita k7 com meu amigo Zé, era maravilhoso também, porém um pouco inferior ao primeiro. Mas a grande notícia do segundo álbum veio quando anunciaram que a banda se apresentaria por aqui, seria para mim um show imperdível.
Quando foi anunciada a apresentação da banda tive uma crise existencial, pois o show seria em uma terça feira, data de uma prova de biologia, eu nunca havia perdido uma prova do colégio por causa de shows, mas depois de muito pensar, decidi que essa seria a primeira vez, e valeu a pena, vi um grande show e ainda por cima recuperei a nota em outra oportunidade.
Ninguém quis ir comigo nesse show, mas como não queria perder, comprei meu ingresso e fui sozinho mesmo, isso para mim nunca foi problema.
Saí naquele dia direto do serviço para o Olympia, nem passei em casa, e comi somente um dogão na rua mesmo, quando entrei na casa percebi que algo estava diferente, o público era novo para mim, sim vários cabeludos fãs de metal, mas misturados com rappers que lá estavam para ver Ice T em ação.
O Olympia estava bem cheio aquela noite, e foi meio chato agüentar os raps tocando no som ambiente antes da entrada da banda, mas acho que até estava no contexto, então não tinha muito do que reclamar.
Quando as luzes se apagaram e a banda entrou foi um alvoroço total, logo de cara Body Motherfuckin’ Count e Body Count’s In The House, o Olympia estava em erupção total naquele momento.
A banda era composta só de negros, e o guitarrista Earnie C. destruía na guitarra, enquanto Ice T, vestido com um agasalho do Santos Futebol Clube, vociferava as letras das grandes, Body Count, Necessary Evil, Bowels Of The Devil e Killin’ Floor.
O público era selvagem, poucas vezes vi tanta agitação em uma pista como naquela noite, principalmente quando a banda anunciou Evil Dick, e Born Dead, nessa uma roda gigante se abriu no Olympia e não existia uma pessoa sequer que não agitasse naquele momento.
Eu havia cortado o cabelo no sábado anterior a apresentação e sentia a cabeça totalmente leve para agitar quando os primeiros acordes de There Goes The Neighborhood soaram, naquela música agitei como nunca, foi sem dúvida a melhor da noite, mas não era a última, no final a banda tocou Cop Killer e Ice T fez com que todos presentes no Olympia, mesmo os seguranças, mesmo alguns idiotas do camarote, que ele já havia xingado, todos mesmo erguessem o dedo médio e gritassem fuck you, a casa parecia um barril de pólvora que explodia naquele instante.
Fui para casa a pé, pois nenhum ônibus quis parar no ponto, devo ter perdido uns dois quilos durante a apresentação e suava sem parar, mas a sensação era de que esse show jamais seria esquecido.
E como selvageria é pouco o guitarrista D-Rock usava uma máscara de goleiro de hockei, quando jogou para a platéia dois caras disputaram o presente por uns dez minutos, inclusive rolando no chão, nunca mais vi algo parecido.
Phillips Monsters of Rock – Estádio do Pacaembu, São Paulo 02/09/1995.
Depois de ter ido ao primeiro Monsters of rock, fiquei logicamente na expectativa de haver uma segunda edição, e para a minha felicidade e de várias outras pessoas, foi anunciado o segundo Monsters, no mesmo local, porém com uma programação que mesmo que fosse legal, não era como a primeira.
Eu continuava trabalhando no mesmo lugar na época e estudando a noite, dessa vez a fama do primeiro festival, fez com que muita gente se interessasse em ir, o que de certa forma era bem legal, pois mais gente mais bagunça.
No serviço continuava sem ter ninguém para conversar sobre o assunto, mas na escola, o Monsters dominava totalmente os corredores, bem pelo menos para aqueles que curtiam um bom som, não existia a possibilidade de falar de outra coisa senão assistir ao grande Ozzy e as outras bandas no Pacaembu.
Como eu trabalhava na rua aquela época eu resolvi comprar um Walkman para escutar música, sim naquela época não existia mp3, ou coisa similar, e um cd player portátil custava os olhos da cara, então o jeito era um Walkman mesmo e umas fitinhas cassete para aguentar as filas nas repartições públicas ou os ônibus de percurso interminável.
Eu carregava comigo o tempo duas fitas de noventa minutos cada uma, em uma delas tinha Ozzy Osbourne e na outra Alice Cooper, respectivamente lado A de uma Diary Of A Madman e lado B no Rest For Wicked e na outra lado A Trash e lado B School's Out, fiquei ouvindo muito isso na rua, demais mesmo, por uns 3 meses só escutava isso nas ruas, e lógico que em casa continuava escutando os outros cds e discos que tinha da bandas que se apresentariam no festival. Uma coisa curiosa é que sempre que passo pela Avenida Senador Queiroz em São Paulo, me recordo do School's Out, eu ia bastante a uma repartição ali, e ficava sentado na porta escutando as fitas e vendo o movimento da avenida, essas coisas mesmo acabam não saindo da mente.
Quanto mais o dia do festival se aproximava, mais a ansiedade crescia em todos nós que íamos até lá, talvez eu não me recorde de todos, mas se não me falhe a memória, que me acompanharia seria meu irmão Manoel novamente, junto com Leo, infelizmente durante aquele ano acabai perdendo o contato com o Leonardo, mas também tinha gente nova como o Zé, e o Nelson, que eram de outra classe mas sempre nos falávamos antes de começar as aulas ou no intervalo delas.
Finalmente era chegado o dia, ou melhor, o dia anterior, como aconteceu àquela passagem de som do Kiss no ano anterior, resolvemos ir até o Pacaembu na sexta a noite para ver se aconteceria algo de gênero, infelizmente não aconteceu, mas o engraçado foi termos ido até a churrascaria do estádio, visto o preço das coisas, pedir comida e sair correndo, hoje eu logicamente nunca faria isso, mas como era moleque com dezessete na época, acabou sendo bem divertido, mas para quem está lendo nunca façam isso, é uma puta sacanagem.
Naquela noite mais uma vez não consegui dormir direito, creio que ninguém conseguiu devido a expectativa novamente, me lembro que durante vários dias eu comentava que gostaria de uivar bem alto durante a execução de Bark At The Moon, então para mim esse seria um dos momentos mais esperados do festival sem dúvida, aliás o show do Ozzy era o mais esperado, era anunciada que aquela seria a última tour da banda, hehehe, então por isso a expectativa era realmente imensa.
Chegava o dia finalmente, era um sábado parcialmente nublado, com uma temperatura legal, não estava muito quente, isso faria com que as energias durassem bem mais, embora energia era o que não faltaria naquele momento.
Antes de entrar novamente muita festa na fila, me lembro de um cara que fazia tatuagens de rena nas pessoas, e conseguiu escrever o nome Ozzy errado no braço de um cara, escreveu Oszy, quase saiu porrada por causa disso, ou fato legal foi ver o pessoal descendo o morro na praça Charles Miller escorregando, quando o Nelson foi tentar não conseguiu, e acabou sendo hilário para todos os presentes.
Quando os portões abriram, novamente vinha aquela alegria do ano anterior, e nesse ano haveria uma banda a mais, portanto menos tempo para esperar o primeiro show, logo na entrada ganhamos umas balas de brinde, que depois acabaríamos usando de maneira não muito legal.
O primeiro show do dia foi do Clawfinger, que foi encaixado no festival de última hora, e até fizeram um show legal com quatro músicas e o vocalista conversando muito bem em português com o público, antes de anunciar uma das músicas.
Na sequencia veio o Rata Blanca, banda que fez muita gente torcer o nariz por ser argentina, mas que fizeram um show bem legal, o que me fez depois procurar material da banda, e hoje curto bastante o som deles, foi um belo show, mesmo que bem curto.
Naquele ano somente uma banda nacional foi escalada para o festival, e estranhamente não era uma banda de Metal, mas sim o Virna Lisi, que fazia uma espécie de Rock alternativo, bem chato por sinal, até hoje não sei o porquê da escalação deles, mas o show foi horrível, acabamos usando as balas que foram brinde para jogar na banda, tudo bem estupidez total isso, mas não dava para aguentar, foi a primeira vez que vi vaias e pessoas totalmente paradas em um show, ou xingando, ninguém estava gostando, e o único momento de maior animação foi quando o baterista Igor Cavalera subiu ao palco para tocar percussão em uma das faixas, mesmo assim ainda tive que aguentar, bem eu sozinho não, todo estádio, uma das frases mais infelizes da minha vida, dita pelo vocalista da banda antes de uma das músicas:
“Como estamos no Brasil, vamos tocar um samba”, depois disse mesmo se eu fosse um santo não resistiria a jogar as balas no cara, que depois foi acertado por um saco de pão na cabeça segundo meus amigos, pena que infelizmente não vi a cena.
Quando começou a introdução do show do Paradise Lost, as primeiras rodas começaram a se abrir o Pacaembu, a banda tinha bastante fãs por aqui, e muitos estavam lá somente para ver essa apresentação, nesse momento todo o pessoal que estava comigo se perdeu, restando somente o Zé, e falando em Paradise Lost, eu não conhecia nenhuma música deles, mas curti também o show, mesmo sendo novamente bem curto.
Após o Paradise Lost, resolvemos procurar algo para comer, o que era complicado no Monsters, e estrutura era muito ruim, e confesso que tanto eu como o Zé não estávamos a fim de ver o Therapy, compramos um sanduíche ruim e após comer fui até o banheiro, quando saí fiquei assustado com a recepção que o Therapy teve, imaginei até que o show havia sido cancelado, hehehe, mas não foi, e sentado na grama, ou melhor, no tapete, que pela cor era o mesmo do ano anterior assisti ao show entediante que pareceu durar uma eternidade, mas o legal é que deu pra descansar um pouco para aí sim agitar muito no Megadeth que viria a seguir.
Já era noite quando o Megadeth invadiu o palco ao som de Skin o' My Teeth, eu já havia assistido a banda no ano anterior, mas dessa vez era diferente, e aparecia estar sendo mais legal, eu também já conhecia mais músicas, e o set foi bem legal com vários clássicos como Train Of Consequences, Holy Wars, Symphony Of Destruction, In My Darkest Hour, e Wake Up Dead, no bis atendendo aos pedidos do público ainda rolou Peace Sells e Anarchy In The UK para encerrar o que foi um dos melhores shows da noite, o problema é que durante a Holy Wars o Zé desapareceu na pista e lá estava eu novamente sozinho, perdido naquele estádio, mas feliz da vida.
Depois do Megadeth, resolvi dar uma descansada durante o show do Faith No More, eu até curto a banda, mas achei a escalação deles meio descolada, e confesso que estava com mais vontade ver o Alice Cooper e lógico o Ozzy.
O Faith No More entrou no palco tocando algumas músicas novas que eu não conhecia, e devido a uma falha na luz do palco tudo ficou meio escuro, o público esfriou de vez, e só no final o show voltou a ficar animado, quando a banda emendou os clássicos We Care A Lot, Epic e Digging The Grave que encerrou o set, uma coisa bem legal foi ver o baixista Billy Gould usando a camisa do Verdão (Palmeiras), não foi tão legal o show, mas até que valeu a pena.
Após a apresentação do Faith No More, a espera pelo Alice Cooper, foi cruel, demorou demais a montagem do palco, foi uma tortura, eu estava morrendo de sede naquele instante e fui obrigado a pagar cinco reais em um copo de água, isso em 1995, demorou muito mesmo, mas o show acabou valendo a pena, até demais, foi melhor do que esperava.
O palco tinha a decoração de um beco, e o telão mostrava uma caixa que estava lá em cima, aos primeiros acordes de Under My Wheels, o grande Alice saiu de dentro do caixote para detonar tudo, que começo legal, aliás, que set list legal, I’m Eighteen, Desperado, No More Mister Nice Guy nossa bem legal mesmo, após esses clássicos começou a parte mais teatral do show, onde tocaram Gutter Cats vs. The Jets, para mim a melhor música de todo o festival e uma das mais legais que já vi ao vivo na vida, e continuava com brigas encenadas no palco, Feed My Frankenstein, Ballad Of Dwight Fry, com Alice usando camisa de força, e um final muito legal com School’s Out e Elected, nessa com cada um dos músicos usando máscaras de ex-presidentes dos Estados Unidos, nossa puta banda por sinal, e uma puta show, acabou sendo o melhor da noite, até pela surpresa gerada.
Após esse grande show era o momento tão aguardado de ver mister Ozzy Osbourne subir ao palco, novamente a espera foi longa e cruel, dessa vez para desmontar o palco, já começava a bater a fome, a sede, o sono o cansaço, mas não daria para desistir naquele instante, eu teria que encontrar forças mesmo que fosse no inferno para agitar no show do Madman.
E quando a introdução rolou no telão e nos altos falantes, introdução bem legal por sinal, e energia reapareceu, e a banda entrou no palco sem piedade com Paranoid, era muito bom aquilo, apesar do guitarrista Joe Holmes que não era essas coisas lá estava Geezer Butler no baixo, ou seja meio Black Sabbath. O show seguiu com Desire, Mr. Crowley, cantada em uníssono por todo o estádio até chegar o momento em que foi anuciada a música No More Tears, duvido que alguém naquele estádio não tenha olhado para o Geezer para ouvir a introdução de baixo, e foi uma das mais legais do show, assim como também foi legal I Just Want You, que era uma música nova, e as faixas do Black Sabbath, como War Pigs e principalmente Sweet Leaf, uma grande surpresa para todos, a melhor daquele show. No final quando a banda voltou para o bis, vieram com Crazy Train, muito esperada por todos e Bark At The Moon, onde usando minhas últimas forças consegui uivar como combinado, não somente eu, mas a grande maioria que ali estava,e garanto, mesmo saindo por um portãozinho apertado e cansados, foram todos felizes e contentes para casa, seja onde fosse.
Eu logicamente estava em êxtase quando reencontrei todos na saída do estádio, praticamente morto de cansado, mas sabendo que tinha visto um festival muito legal, e na esperança de poder voltar ano que vem.
Dio – Palace, São Paulo 28/11/1995.
Era a primeira vez que ia assistir a um show em um local pequeno como o Palace, que já mudou tantas vezes de nome que nem sei mais como se chama, mas continua sendo um dos melhores lugares para ver show por conta do tamanho da casa.
Era a minha primeira chance de conferir a lenda Ronnie James Dio ao vivo, felizmente eu tive depois várias outras oportunidades para tanto, já que o cara é simplesmente a maior voz que já pisou na face da terra em todos os tempos.
Eu realmente não sabia o que podia esperar desse show, várias músicas da carreira solo? Black Sabbath? Rainbow? Elf? Bem enfim tudo era um grande mistério, e não tínhamos internet como hoje, eram tempos mais românticos eu posso dizer, hehe, embora eu goste da internet, mas as vezes ela atrapalha o suspense.
Fomos lá eu e meu irmão Manoel, para comprar o ingresso eu acabei me perdendo, pois não conhecia bem aquela região ainda, mas foi até bom, porque no dia do show já tinha a certeza absoluta de qual ônibus tomar e em qual ponto descer para ir ao show.
O Palace era uma casa muito confortável, o palco ficava bem próximo a pista, inclusive de onde eu estava podia tocá-lo, o que aumentava ainda mais a expectativa para o que estava por vir.
Uma grande curiosidade que tinha era a quanto à altura do Dio, seria ele tão baixo quanto diziam? Bem o microfone posicionado mostrava que provavelmente sim, o cara era baixo mesmo.
Antes de começar o show tivemos várias conversas legais com um pessoal mais velho em frente ao palco, um dos caras inclusive estava engessado e com as costelas quebradas, mas estava ali para curtir o momento, infelizmente hoje esse hábito de conversar e se divertir antes dos shows parece estar morrendo, o que é uma pena, pois diminuía bem a espera.
Após uma breve introdução a banda finalmente entra no palco, e para minha surpresa Dio diminui ainda mais a altura do microfone, o cara era baixo mesmo.
Começaram com Jesus Mary And The Holy Ghost, uma música legal e bem pesada, e desde o início o público estava nas mãos do mestre, que cantava ainda melhor ao vivo que nos álbuns.
Não vou recordar todo o setlist naturalmente, mas lá estavam os grandes clássicos para delírio total de todos Rainbow In the Dark, Don’t Talk To Strangers e We rock, e mesmo o show sendo mais baseado em temas da carreira solo de Dio pude ver pela primeira vez ao vivo clássicos como Mob Rules e Man On The Silver Mountain.
O melhor momento do show foi em Don’t Talk to Strangers quando Dio se aproximou da platéia e pude tocar nas mãos do deus por um instante, totalmente inesquecível, grande show de um grande cara que vai deixar saudades.
Acabei vendo outros shows do baixinho, mas como esse foi o primeiro acabou sendo um dos mais especiais.
No final foi dureza voltar para casa e acordar no dia seguinte para trabalhar, mas depois de ver deus quem se importa não é mesmo?
Ritchie Blackmore’s Rainbow – Olympia, São Paulo 06/07/1996.
Poxa preciso dizer que sou um cara de sorte em relação a shows, está certo que já estive em algumas furadas e quebrei a cara, mas na maioria dos shows que fui me diverti bastante, além do fato de poder ter visto grande parte de minhas bandas e artistas favoritos.
Um dos meus guitarristas favoritos sempre foi Ritchie Blackmore, tanto pelo trabalho com o Deep Purple quanto pelo Rainbow ou Blackmore’s Night, já que não é para qualquer um criar riffs geniais com Smoke On The Water ou Gates Of Babylon, isso sem contar os solos inspirados, então seria uma oportunidade única assistir esse show do Rainbow aqui em São Paulo.
Todos conhecem a fama de Blackmore, então era difícil saber o que esperar do show tocaria os clássicos? Estaria de bom humor? Ou iria dar ênfase ao novo álbum que acabara de lançar? Questões que somente naquele sábado poderiam ser respondidas.
Eu e me irmão Manoel saímos de casa com certa antecedência para garantir um lugar legal para o show, como houve um show no dia anterior teríamos informações de onde o cara ficaria no palco.
Chegando lá o Olympia ainda estava fechado, e deu para conversar com algumas pessoas na fila que disseram que ele ficou no dia anterior somente do lado esquerdo do palco, portanto esse seria nosso destino.
Entramos na casa e garantimos um lugar bem próximo à grade, com boa visibilidade e certo sossego estranhamente.
A expectativa antes do show era grande, e o público quase não conseguia se conter,quando finalmente as luzes se apagaram e a banda entrou ao som de Too Late For Tears, realmente lá estava Blockmore, vestido de Peter Pan tocando na minha frente, inacreditável.
O cara estava de bom humor e serviu alguns copos de água a platéia, antes de introduzir o grande clássico Long Live Rock And Roll, o Olympia veio abaixo, principalmente pelo fato da música ter sido emendada com Black Night, que como de costume teve o refrão cantado por todos os presentes.
A banda era muito competente, e Blackmore mesmo quieto parecia gostar do show e tocava demais, o grande destaque era o vocalista Doggie White, que chegou até a subir no camarote durante a apresentação, além de interpretar muito bem as músicas.
O set foi muito bem escolhido, com músicas mais novas como Black Masquerade e clássico do nível de Man On The Silver Mountain e Difficult To Cure, com solos de guitarra e teclado bem legais, e pelo menos para mim a grande surpresa da noite foi Temple Of the King, ficou simplesmente maravilho ao vivo.
Durante a execução de Ariel, a esposa de Blackmore, Candice Night, lindíssima por sinal fez uma participação especial fazendo backin vocals, para delírio dos presentes.
No final Smoke On The Water, fechou com chave de ouro a grande apresentação, só ficou faltando mesmo Gates Of Babylon, mas tudo bem fui para casa de volta feliz de todo jeito.
Phillips Monsters of Rock – Estádio do Pacaembu, São Paulo 24/08/1996.
Em 1996 eu já podia dizer que era um veterano em shows, já tinha dois festivais no currículo e alguns outros shows menores, mas não menos grandiosos em qualidade, mas aquele ano seria muito especial, principalmente após ser confirmada a escalação do Philips Monsters of Rock, com várias bandas que eu curtia e curto bastante até hoje, algumas de minhas favoritas, posso certamente dizer que essa foi a melhor escalação que o festival teve, só perdendo talvez para o primeiro Rock In Rio de 1985, que infelizmente não pude estar presentes, mas trouxe bandas maravilhosas vivendo seu auge nas respectivas carreiras.
Mas vamos ao Monsters, poxa era demais para eu saber que poderia pela primeira vez conferir o Iron Maiden tocar, então a expectativa foi enorme, mesmo com os vocais da banda estando com Blaze Bayley, que não é um vocalista ruim, mas definitivamente não combina com o estilo da donzela.
Como disse anteriormente a expectativa era enorme, e dessa vez mais gente me acompanharia na empreitada, infelizmente não vou lembrar de todo mundo, então nem vou citar para não esquecer ninguém, mas fui em um grupo de vinte pessoas, então hoje seria mesmo difícil recordar todos, mas eram em sua quase total maioria pessoas que estudavam comigo, na mesma classe ou pelo menos na mesma escola em outras classes, o Monsters havia mesmo se solidificado no cenário e havia ficado quase religioso para todos nós.
Hora de fazer aquele aquecimento para o show, escutando exaustivamente todas as bandas, e lógico principalmente o Iron Maiden que seria o headliner.
Naquela época eu ainda não tinha internet, então os set lists, e qualquer outra informação sobre os shows das bandas eram poucos, tudo tinha certo mistério que confesso sinto falta hoje em dia, algumas bandas que lá tocariam eu sequer havia visto imagens delas em ação como o Helloween e o King Diamond.
Depois daquela torturante espera havia chegado o dia, lembro que na sexta feira antes do fesitval eu fui até a casa do Zé, que iria comigo e ficamos tomando umas e escutando um som, foi bem legal isso, pois já nos deixava no clima. Dessa vez não fomos até a porta do estádio como no ano seguinte, estávamos calejados e sabíamos que tínhamos que dormir cedo e descansar, pois o dia seguinte seria cansativo, mesmo sendo maravilhoso.
Como havia passado fome e sede no ano anterior, resolvi me preparar melhor dessa vez, então levei uns copos descartáveis com água e sanduíches de pernil para suportar a maratona.
Dessa vez também não combinamos com todos lá em casa, marcamos na porta do estádio para o encontro, e também um pouco mais tarde, não mais às dez quando abriam os portões, mas sim as onze, mais próximo do início das bandas, acabou sendo a coisa correta a fazer, pois pela primeira vez o dia estava muito quente e tinha um sol de rachar.
Como sempre o clima no Pacaembu era maravilhoso, uma festa só, com muita gente, dessa vez bem mais que nos anos anteriores sedenta por Metal e Rock and Roll. Nossa entrada no estádio foi mais tranqüila em vista do horário, mas logo ao entrar ocorreu uma coisa que acabou me degradando um pouco, na brincadeira de fazer “pirâmides” o pessoal acabou caindo sobre minha mochila inutilizando meus queridos sanduíches de pernil, isso acabou fazendo uma falta tremenda no decorrer do dia, hehe.
A primeira banda do dia seria o Heroes Del Silencio, que foi encaixado de última hora, e era desconhecida por todos, por mim inclusive, e acabaram fazendo um show que passou totalmente despercebido, não me recordo de quase nada, somente do fato de ter sido curto, e não muito aproveitável.
Na seqüência veio o Mercyful Fate, uma das bandas mais aguardadas por mim naquele dia, e os caras não decepcionaram, fazendo um show que trouxe o estádio abaixo com clássicos tipo Evil, The Bell Witch e Satan’s Fall, encerrando com chave de ouro com Come To The Sabbath, um show mesmo que curto perfeito, só era estranho vê-los tocar naquele horário.