ARMAZÉM COLOMBO
by Carlos Gentil Vieira
Copyright 2012 Carlos Gentil Vieira
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SUMÁRIO
Profissão, vendedor de cachaça
Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases da terra morta, misturando
Memória e desejo, avivando
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
(T.S. Eliot, The Waste Land, 1922)
Quero deixar escrita uma confissão, que a um tempo será íntima e geral, já que as coisas que ocorrem a um homem ocorrem a todos.
(Jorge Luis Borges, dedicatória - Obras Completas)
Escrevi meu primeiro livro aos nove anos de idade. Esta idade mágica que representa o despertar de nós mesmos. O livro - ainda bem - nunca foi publicado, e afinal os originais se perderam no tempo. Tinha o título pomposo de O Reino Sem Sossego. Formatado em capítulos, com ilustrações do autor, e lido em sala de aula para os colegas do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Hoje não consigo entender como venci uma timidez endêmica que me acompanhou até a idade madura e aceitei aparecer assim como escritor tão precoce.
Não me lembro mais de como comecei a escrever. Tudo era colocado em um caderno, escrito nas horas vagas. Olhando de longe, acho que todas as horas, naquela época, eram vagas. Eu escrevia para o meu público. Crianças como eu, que não tinham televisão, e eram muito influenciadas pelas histórias em quadrinhos que corriam solto, e eram trocadas e disputadas no tapa. Uma vez fui à casa do Tércio Drummond, perto da rua do Ouro, e fiquei simplesmente louco ao descobrir pilhas e mais pilhas de gibis, alguns da década de 30. Não acreditei que alguém pudesse guardar tanta revistinha antiga, nunca tinha visto nada igual, e pedi logo todos os gibis emprestados. Precavido, Tércio emprestava à prestação. Só podiam ser dez revistas de cada vez. Eu devorava tudo à noite, incansavelmente. Isso sim era cultura.
Mas, voltando à minha nascente profissão de escritor, tão promissora dizia a família, acho que morreu ali mesmo. Só muitos anos mais tarde, já com quarenta anos, aceitei o desafio de meu amigo Álvaro Esteves para escrevermos um livro a quatro mãos, e aceitei. Ganhamos um prêmio, com direito a muita cerveja. Fora isso, só minha atividade diletante de editor de revistas e jornais, uma vocação que mantive até recentemente.
No Grupo Barão, aquilo de escrever livro era apenas mais uma brincadeira. Eu só percebi que estava agradando de alguma forma ao meu pequeno público quando, um dia, na falta da professora titular, a substituta, meio sem saber o que fazer, pediu à turma alguma sugestão de atividade, e eu fui intimado a ler um capítulo inédito do meu livro, para espanto da mestra. Como podia um menino escrever livro?
Depois de concluído com aquele fim dramático do príncipe salvando a princesa, meus originais foram transcritos com toda paciência pela minha irmã, apostando numa promissora carreira intelectual do irmão, coisa que nunca aconteceu. Datilografado em duas vias criteriosamente, revisto com toda seriedade por mim, e novamente ilustrado a cores.
Em dado momento, depois de uma conferência familiar, concluiu-se que seria necessário ouvir uma opinião isenta, antes de partir para a empreitada da publicação. Eu me lembro que a esta altura estava mais preocupado com a rua, as férias, as primeiras descobertas do mundo, do que propriamente com aquela chatice, escrita por um impulso inexplicável.
Uma noite fomos levar os originais para ouvir a opinião da professora Naly Burnier, amiga da família que morava ali na rua Aimorés perto de Bias Fortes, e de alguma forma envolvida com livros infantis. Eu ainda sem entender nada. Depois de uma rápida leitura, alguns comentários, e uns biscoitinhos de nata, a Naly se deteve numa ilustração que mostrava uns cavalos saltando de paraquedas. Pronto, aquilo deu a maior confusão. É possível, não é possível, e eu continuava a não entender nada. Se o livro era meu, se eu havia colocado aquela cena, tudo era possível. Daí ela chama o eterno noivo, que na sala devia estar escutando algum jogo pelo rádio, e foi chamado a opinar. Eu, atônito. Ele, naturalmente relembrando seus bons tempos de CPOR, decretou que sim, era possível. Porque não? Cavalo também salta de paraquedas. Eu agradeci-lhe aquela salvadora intervenção e perguntei, baixinho, à minha mãe se não era melhor a gente ir saindo, ainda tínhamos que voltar à Serra, pegar o bonde, uma dificuldade. Este mesmo livro, escrito no formato de folhetim, representou um verdadeiro salto quântico na minha ainda pequena existência. Eu podia pensar, e imaginar. Criar mundos novos, desconhecidos, povoá-los de seres e sentimentos. Esta capacidade de sonhar, apesar de tudo, me acompanha até hoje.
Minha ideia aqui foi fazer mais ou menos a mesma coisa. Pegá-lo pela mão, caro leitor e cara leitora, e revisitar este nosso tempo de criança, num lugar chamado Belo Horizonte, ali pelas décadas de 40 e 50. Posso assegurar que era um pedaço do paraíso. Pena que as cidades de hoje tenham perdido muito do seu encanto, a título de progresso, e tenham se transformado naqueles mesmos monstros que eu coloquei no meu livrinho. Desconfio que foi um mineiro ilustre daquela época, Juscelino Kubitschek - personagem pelo qual tenho grande admiração, diga-se de passagem -, quem desencadeou, sem querer, este ciclo de loucura urbana em que vivemos. Juscelino, prefeito de Belo Horizonte na década de 40, foi um reformador da cidade, até então apenas um tédio, como disse Carlos Drummond. Se os construtores Aarão Reis e Francisco Bicalho foram minuciosos em planejar a primeira capital brasileira do século XX, Juscelino foi ousado em modificá-la. Mexeu no traçado, criou novas avenidas, construiu a Pampulha. Ao governar o Estado lançou o lema do “binômio energia e transporte”. Era preciso realizar obras, encurtar distâncias, investir na infraestrutura. Não parece um discurso atual? E acho que foi por causa deste mesmo mote de campanha que surgiu em BH em 1952 o jornal alternativo e meio anarquista Binômio, de José Maria Rabelo.
Mas deixemos esta realidade para lá, e vamos fingir que o tempo parou. Ruas perfumadas de dama da noite, casas senhoriais, famílias conversando nas calçadas (livres dos caninos que insistem em sujar o nosso caminho), crianças brincando na rua de manhã até à noite, sem a mínima preocupação por parte dos pais. Não havia, ainda, sido descoberta a tal de dona violência, que nos tirou um pouco a brincadeira de criança e a alegria de viver.
A gente ia de bonde. Começava no abrigo Ceará, ali na praça Doze, corria mole pela Paraúna, subia Rio Grande do Norte e entrava na Cristóvão Colombo, em direção à praça da Liberdade. Fiz muitas vezes este percurso, pés balançando, olhando as casas e as ruas que se sucediam como num filme.
Este foi o meu primeiro passeio na vida, o primeiro encontro com o mundo. Está lá registrado no Livro do Bebê: “Foi passear com sua irmã Verinha até o Armazém Colombo”. O dito armazém era uma instituição nos arredores da Savassi, de caderneta e tudo. Consta que os donos eram portugueses da Beira e ele ficava ali na esquina da Cristóvão Colombo com Paraíba. As entregas a domicílio eram feitas com um furgão verde, daqueles tipo Dick Tracy. Os caixeiros, como se dizia, usavam na cabeça aquele saco de açúcar pérola azul, enrolado, como se fosse um boné. E aventais, naturalmente. Minha avó, senhorial, mandava entregar em casa. Nós, mais modestos, íamos de bonde fazer as compras. Isto foi antes de aparecer o Entreposto, ali na avenida do Contorno.
De qualquer forma éramos conhecidos. Todos eram conhecidos. A gente chegava, assuntava os preços, minha mãe sempre pediu um abatimento, o que era concedido. Deviam odiar aquele costume mineiro de pedir abatimento, ou já colocavam o desconto no preço. De qualquer forma, a lista ia sendo percorrida, e a caderneta devidamente preenchida, para pagamento ao final do mês. Eu sempre me preocupei mesmo foi com as bolachas “Maria”. Nunca consegui acompanhar aquela rotina cansativa, sem sair levando umas “Marias” no bolso. Ia comendo calmamente, e acho que pagava o sacrifício. E também gostava de ficar enfiando a mão no feijão, naquelas imensas caixas de madeira, com tampa, onde ficavam os grãos e as farinhas. O caixeiro usava a medida de latão, pesava, e separava os sacos para serem levados. Muito mais tarde voltei a ver aquele mesmo tipo de caixa na casa de D. Biju, em frente à Igreja da Conceição em Sabará, remanescente do armazém de seu Antônio Geo.
Quando, alguns anos depois, me mandavam fazer alguma compra no Entreposto - uma central de abastecimento que ficava próximo da minha casa - ficava pensando que não havia nada como o Armazém Colombo. O Entreposto era pequeno e desorganizado. Devia ser porque era estatal. Já um prenúncio de que os governos seriam maus administradores. Salvava-se o açougue, na rua Estevão Pinto, em frente ao ponto do bonde, perto da casa de Vó Leonor. Minha mãe reclamava sempre do “contrapeso”, que os funcionários insistiam em adicionar ao seu pedido. Encarecia a conta e não servia para nada. Mas, mesmo assim, ela dizia que o Entreposto era melhor opção do que o Zé Açougueiro - isto para diferenciar do Zé Barbeiro, um ao lado do outro - porque este sim, tinha as balanças todas desarranjadas, assinalando um peso maior naturalmente.
Estes dois Zés sempre fizeram parte do folclore do bairro. Era no Zé Barbeiro que as notícias corriam rápidas, numa franca concorrência com o Bar do Plínio. Era lá que o Bebeca lia seu jornal da manhã todos os dias, de graça, já que morava em frente. Foi ali também que me fizeram aquele corte de cabelo humilhante, todo raspado, com um topetinho na frente. Era o padrão para crianças. O corte todo devia levar uns dez minutos. Lembro-me que o Zé Barbeiro não era de falar muito. Mas, ouvia. Assim como a Fernandinha aqui de casa. Ouvia muito, e murmurava concordâncias ou desaprovações, balançando a cabeça. Com isto, naturalmente, referendava os comentários que os fregueses faziam sobre tudo. Sobre a política (primeiro prato dos mineiros), sobre o Atlético, sobre mulheres infiéis, sobre o custo de vida. A prefeitura naquele início dos anos 50 era muito ativa. O prefeito era Américo René Gianetti, a quem fui apresentado uma vez no Parque da Gameleira pelo meu avô. Mas, mesmo assim, havia muita coisa a fazer. A Pampulha - esta grande obra de Juscelino - ainda era um ermo, com muito terreno baldio. O sistema de transporte urbano havia de ser mudado, com novas linhas de lotações, e a substituição progressiva do bonde pelo trólebus. Os cruzamentos de ruas e avenidas, sem sinais de trânsito, eram um desafio aos motoristas. O calçamento das ruas, em sua maioria, era ainda de paralelepípedos, exigindo um batalhão de meninos que se revezavam pelos bairros capinando o matinho que surgia entre as pedras.
Neste meio tempo, apareceram uns alemães na minha rua sobreviventes da Segunda Guerra Mundial. Eles foram morar na vila de casas do seu Leão. A família - pai, mãe e um casal de filhos - havia imigrado. A situação era tão feia que eles quase não tinham roupas. Os homens usavam ainda alguns casacos verdes do exército, para compor a indumentária nos dias mais frios. Os filhos foram logo empregados na Mannesmann, e o pai colocou uma banca de jornal em frente ao Entreposto (não me perguntem como essas coisas eram possíveis naquela época). Falar em banca de jornal é um pouco força de expressão. Acho que alguém usou este termo com o alemão e ele confundiu tudo. Arranjou um banco de madeira, encostou no muro da Casa de Saúde Santa Clara, colocou as revistas e jornais em exposição e começou a vender. Apenas tijolos, toscamente arranjados por cima, impediam os exemplares de saírem voando com o vento. Isto tudo sem falar uma palavra de português. Não era este o país da oportunidade? Não devia ser aqui a tal da América?
Os alemães nunca trocaram um cumprimento conosco, mas não nos esquecemos deles. Será que ainda moram no Brasil? Só sei dizer que meu amigo Túlio Bueno andava pela rua atrás da moça dizendo o tempo todo “Ich lieb dich”. Única coisa de alemão que me ficou na memória.
(Nota 1) O nome da praça 12 de Outubro mudou e hoje é uma homenagem ao industrial e financista mineiro Cel. Benjamin Ferreira Guimarães, patriarca da família Guimarães e idealizador do Hospital da Baleia, que menciono mais adiante. O curioso é que a praça 12 chamava-se 7 de Setembro no projeto original da cidade, e a atual praça Sete, ícone da vida belorizontina, era chamada de praça Doze. Parece que foi Raul Soares quem propôs a troca de nomes, isto lá em 1922. Surgiu um impasse com o projeto de se colocar um obelisco comemorativo da Independência, o famoso Pirulito, na praça mais central da jovem cidade - a homenagem não combinava muito com o nome da praça. Então, decidiram trocar os nomes. Tão simples quanto isso. A praça 12 da minha infância possuía um abrigo, como se dizia, e era o ponto final do bonde que vinha da praça da Liberdade. Também por ali passavam os bondes que demandavam a Serra e o Cruzeiro. E, finalmente, a praça Benjamin Guimarães de agora passou a ser mais conhecida como praça ABC, tomando como referência uma padaria local, que também já acabou. Mais ou menos a mesma coisa que aconteceu com a Savassi.
Fui aluno, sim senhor, do Jardim de Infância Bueno Brandão. Recentemente li que Fernando Sabino e Helio Pellegrino também foram colegas ali, e formaram amizade para a vida toda. Da nossa família, a última a frequentar as salas do Bueno foi nossa afilhada Paulinha. Não mais aquele velho Bueno que eu conheci, mas um outro prédio inteiramente novo, transformado que foi em escola estadual. O Bueno Brandão formava com o Grupo Escolar Barão do Rio Branco uma dupla indissolúvel. Cada um de um lado da avenida Paraúna, ou Getúlio Vargas como atualmente é conhecida, ocupando um quarteirão inteiro. Os prédios eram do início do século XX, começo de Belo Horizonte. O do Bueno foi todo importado da Bélgica, estrutura metálica e ripas de madeira, pintado de verde, com as telhas em tom de vermelho. Havia uma grande cúpula central, com as salas de aula formando alas. Na área externa existiam também umas casinhas, estilo chalé, onde nós brincávamos nos recreios, sempre de bandido e mocinho. Além disso, tinha espaço para canteiros, onde plantávamos hortaliças, todos de avental e na maior seriedade.
Era costume, naquela época, fazer-se a coroação de Nossa Senhora nos meses de maio. Não sei por que alguém cismou que eu tinha uma boa voz e fui indicado para cantar na coroação. Pânico na família. Ninguém cantava nada, e agora aparece uma vocação para Caruso? Parecia muito estranho. Eu ali só olhando, uma característica da minha infância. Durante os ensaios, notei uma certa exasperação por parte da mestra de canto, a minha voz não saía no tom de jeito nenhum. Eu bem que me esforçava, mas vi logo que esta não era minha praia. Talvez tenha sido por isso, que alguns anos mais tarde, já no Colégio Anchieta, o professor de Canto Orfeônico prometeu me aprovar na prova final, com louvor, se eu, pelo menos, não atrapalhasse o quarteto em que havia me colocado. Sei não. No dia da coroação, todo de branco, família orgulhosa assistindo no pátio, eu entoei aquele famoso “Avê, Avê, Avê Mariaaa...”. Pelo menos, cheguei ao final e ninguém atirou tomate.
Quem geralmente nos levava ao Jardim todos os dias era o seu Palmiro, um agregado da casa de meu amigo e vizinho Túlio Grasseschi. Quando não era possível ele nos buscar, ou o Túlio tinha outro destino para depois da escola (era sempre para a casa dos Surette, bem em frente ao Bueno), então meu pai me apanhava na saída, ele de terno e pasta, vindo do trabalho. Meu pai, já com mais de cinquenta anos, não tinha muita paciência para uma criança de cinco, e me estimulava sempre a andar, andar, e eu querendo parar, parar. Meu pai era do tempo em que as crianças eram educadas com varinha de marmelo. Li outro dia que este costume há muito pouco tempo foi banido das escolas inglesas. Ele uma vez foi me buscar com uma varinha. Se eu parava, ele me cutucava. Aquilo foi me enervando. Ele se esquecia que eu também era um ariano. Temos o pavio muito curto.
Um dia daqueles tocou a sineta e eu me postei na saída, esperando quem iria me levar para casa, e não apareceu ninguém conhecido. Primeiro, depois que todos os pais, tias, avós e empregadas se foram, acharam por bem me levar para dentro. Não se assuste, tudo bem, foi só um atraso, já vão chegar. Eu, nem um pouco assustado, só olhando. Depois, foi a vez da diretora e professoras irem para casa, alegremente, mais um dia cumprido. Eu, ali, já sentado no sofá da diretoria, só espiando. Em seguida, foi a vez das serventes, já cansadas de tanto corre-corre, foram limpando e fechando as janelas, as portas, jogando o lixo fora. Eu, ali, só de olho, para ver até onde a coisa ia chegar. Já comecei a avaliar se aquele sofá dava para dormir - sobrava. Onde tomaria meu café da manhã - na cantina, de certo. Se o banheiro ainda estava aberto. Estava. A esta altura, até as serventes começaram a ficar preocupadas. Será que este menino está sozinho na vida?
Foi, então, que ouviu-se um toc-toc nervoso na porta principal, já fechada. Era o seu Palmiro, aflito, porque não fora me buscar... Cansou-se de se desculpar, ele que não tinha nenhum motivo para isso. Naquele dia, o Túlio havia saído mais cedo, e todo mundo se esqueceu do Carlinhos. Foi só quando minha mãe estranhou que eu demorava muito a chegar, ligou para D. Alacyr, mãe do próprio, e se desfez a confusão. Ainda bem que seu Palmiro estava sempre pronto a ajudar, e eu fui poupado de passar uma noite no Bueno. Poderia ter sido pior. Já imaginou se fosse um fim de semana inteiro?
(Nota 2) O Bueno deve seu nome a um grande político mineiro da República Velha, Júlio Bueno Brandão, natural da cidade de Ouro Fino (aquela mesma da canção “O menino da porteira”, de Sérgio Reis), presidente do Estado em duas ocasiões. A primeira, em substituição a João Pinheiro, que havia falecido no exercício do cargo (1909), e depois, por mais um período de quatro anos. Ele teve intensa atuação parlamentar em diversas legislaturas. Foi contemporâneo de uma geração de políticos mineiros que tiveram grande destaque na vida nacional: Afonso Pena, Olegário Maciel, Silviano Brandão, Artur Bernardes, Venceslau Brás, Afrânio Melo Franco, além do próprio João Pinheiro. Quem nos conta, com riqueza de detalhes, o que era a política mineira nos primeiros tempos de Belo Horizonte, é Afonso Arinos, em seu livro “Um Estadista da República”. Bueno Brandão foi expoente de uma época em que o sul de Minas, com o peso da economia cafeeira, dava as cartas no Estado, e Minas, por ser o mais populoso, detinha o controle da política nacional, em aliança com São Paulo. Coloco aqui este adendo em minha narrativa porque é muito comum que se vá perdendo, com o passar do tempo, a perspectiva histórica, e os nomes de mineiros ilustres passem a significar apenas avenidas, ruas e praças, ou jardins de infância como é o caso, sem o menor sentido para ninguém.
(Nota 3) A coroação de Nossa Senhora é uma tradição católica muito antiga. Surgiu na Europa no século XIII, no mês de maio, que coincide lá com a primavera, o mês das flores. Como os mineiros sempre foram muito católicos, não se discutia porque uma escola pública, onde podem frequentar alunos de várias religiões, deveria privilegiar uma delas. Não havia ainda a tal separação entre Igreja e Estado.
Entrei para o Bueno Brandão, digamos, pela porta dos fundos. A coisa aconteceu mais ou menos assim. Minha irmã Vera Lygia era muito amiga da minha primeira professora, D. Maria José (do Arquelão), como se dizia lá em casa. Maria José era irmã de Antônio Augusto de Mello Cançado, um grande intelectual mineiro e ex-diretor da Escola de Direito da PUC Minas, e todos haviam sido vizinhos na rua Pouso Alto, onde morou minha família antes de se mudar para a Santa Rita.
Dali surgiu uma grande amizade, que permanece até hoje com os sobreviventes. Quando eu conheci a família de Arquelão da Silveira Gomes eles já moravam na rua Aimorés, perto da Bias Fortes (Maria José, Vera Lígia e Luiz Fernando). Arquelão foi um dos primeiro radioamadores do Brasil (SB-9AA). Lembro-me muito bem daquele quarto cheio de equipamentos, e das recomendações da Verinha para não pegar em nada. Foi graças a ele que minha mãe teve a primeira notícia de que meu irmão Zequinha estava vivo, quando este era um componente da famosa Patrulha Lobo do Grupo de Escoteiros Afonso Arinos, vítima de acidente ferroviário na Mantiqueira em 1938, em decorrência do qual veio a falecer Caio Viana Martins. Além disso, Arquelão possuía, naquela época, uma verdadeira maravilha, capaz de deixar qualquer criança de olhos bem abertos. Uma máquina projetora de filmes 8mm.
Então, marrelógico (como gosta de escrever meu amigo Sarmento), fui colocado na turma de D. Maria José. Meu primeiro dia de Jardim foi uma grande comemoração na minha casa. Finalmente eu iria estudar, e dar algum sossego para meu irmão mais novo, Serginho, e para toda a família, suponho. Meu pai descascou, com grande maestria, as duas laranjas da horta, que seriam envolvidas por um guardanapo xadrez e colocadas na merendeira, que eu orgulhosamente levaria ladeira abaixo. Vera foi designada - mais uma vez - para me conduzir até o Jardim, e como tinha privilégios de amiga, ficou sentada na sala de aula, enquanto eu assuntava o ambiente.
Acho que me adaptei ao Jardim com relativa facilidade. Apenas meu coleguinha Caio Márcio Álvares, muito maior do que a maioria da classe, me assustava um pouco. Quando ele não conseguia vencer pela razão, dava logo um “chega para lá”. Tamanho já era documento.
Tudo estava saindo às mil maravilhas até que minha mãe, por alguma razão, foi me levar certo dia ao Jardim, me deixou na porta de entrada, e ficou acenando de longe. Erro básico. Eu não sei direito o que se passou na cabeça daquela criança de quatro anos. Apenas aquela imagem parecia uma perda insuportável. Chorei. E, depois, chorei na classe e fiquei de cabeça baixa com vergonha. As outras crianças me olhavam curiosas, surpresas, talvez indagando a si próprias se não deveriam chorar também. Lembro-me de que elas contavam às outras no recreio: “Carlos Gentil chorou hoje”. Talvez fosse um aprendizado de que menino também chora, exercitado tantas vezes no futuro. Ora bolas, será que não pode?
Olhem para mim.
Eu me chamo Lili.
Eu comi muito doce.
Vocês gostam de doce?
Eu gosto tanto de doce!
Foi assim que a minha geração foi alfabetizada, eu pela D. Udila Alves, ali na turma 12 do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, uma escola padrão das crianças em Belo Horizonte, principalmente do meu bairro. Meus tios estudaram lá, meus irmãos também, meus sobrinhos também.
D. Ondina do Amaral - filha do seu Amaral que conheci, do alto de seus 70 e tal anos e ainda fazendo decoração de carnaval para os bailes do Minas - era considerada a melhor diretora de Grupo daquele tempo. Dizem que seu passe foi duramente negociado, acabando por deixar o Grupo Cesário Alvim, para tornar-se a onipresente diretora do Grupo Barão. Que bom saber que em outros tempos a gente sentia orgulho em pertencer, estudar, e trabalhar em escolas públicas. Na minha sala, por exemplo, havia um sobrinho do Cardeal Vasconcelos Mota, sempre muito prestigiado pelas professoras. Estudava o filho de Odilon Behrens, grande político e educador de Minas, e nesta época - em que Milton Campos governava o Estado - era o próprio Secretário de Educação. Imaginem o que é fazer parte da turma em que estudava o filho do Secretário de Educação. Contávamos neste time também com o filho de Mário Casassanta e com a filha do cônsul da Síria em Belo Horizonte, Antônio Cadar. Isso sem mencionar a minha turminha: Paulo Bandeira, Sérgio Monteiro e Emílio Cícero.
Em um de meus primeiros dias no Grupo Barão, para minha estupefação, foi anunciado que a Lili, em pessoa, viria à nossa sala. Foi um frenesi. Mas, como? Vai saltar daqueles quadros murais enormes, que ficavam pregados no alto de paredes também enormes, para adentrar esta turma 12? Eu queria ver. Então, junto a uma pequena entourage, toda risonha, entra na minha sala aquela menininha tão linda, cacheada, chamada Lili. Eu fiquei boquiaberto. Não acreditava. Mas era ela mesma, com uma sainha rodada, meias - não estavam furadas, observei bem -, muito desembaraçada, foi lá na frente e saiu dizendo “eu me chamo Lili”, com a maior sem-cerimônia.
Algum tempo depois, a Beatriz (era assim que se chamava a Lili) foi minha colega, e completamos juntos o primário. Então fiquei sabendo que, na realidade, ela era uma aluna igual a todos nós, mas que por alguma razão havia sido escolhida para interpretar a Lili. Ah, ainda bem. Fiquei assustado de ver a Lili assim passando do livro e do mural para a sala. Apenas porque eu não conseguia imaginar como ela faria para voltar.
Muitos anos depois, indo a Belo Horizonte por um dever profissional, encontrei-me com alguém que me pareceu ter sido meu colega no Grupo. Quando indaguei se não havíamos cruzado por lá, ele disse vagamente - olhando para meus cabelos grisalhos - “não, acho que não, você poderia ter sido colega talvez da minha irmã...” E eu disse no ato: “Beatriz!”. Ele, mais que surpreso, disse: “É ela mesma”. Havia encontrado a Lili outra vez.
(Nota 4) A cartilha O Livro de Lili foi escrita em Minas por Anita Fonseca e publicada pela primeira vez em 1940.
Podia ter coisa de uns cinco anos. Não mais. Passava o dia com um calçãozinho folgado, de elástico na cintura, que minha mãe confeccionava com os retalhos que sobravam de suas costuras. Quando não estava no Bueno Brandão, ficava brincando na rua, em frente de casa. Mais pura inocência. Do outro lado da calçada, moravam Magda e Míriam, duas irmãs mais ou menos da minha idade. Eu me lembro que a casa delas, dessas com duas janelas dando para a rua, possuía um alpendre lateral e porão, arquitetura característica dos primeiros tempos de Belo Horizonte. A casa era construída à frente de um grande terreno, com uma enormidade de mangueiras no quintal, cujos frutos amarelinhos a gente namorava de longe. Casa de um andar só, muito espaçosa, que mais tarde virou edifício.
Elas só saíam de vez em quando e para ir à escola. A maior parte do tempo ficavam presas em casa, na janela da sala, apreciando nossas brincadeiras de meninos, e chamando uma hora para isso, outra hora para aquilo. Quando queriam demonstrar agradecimento, nos davam uma romã do jardim. Era o máximo.
Estava eu um dia no passeio, postado em sossego, e elas na janela, conversando. Aí uma delas me diz, assim de supetão: “Mostra seu pintinho”. Eu, meio encabulado, respondi “Meu pintinho, não mostro”. Mostra, não mostra, eu me lembro que a coisa foi ficando difícil para o meu lado, e como era só levantar um pouco o calçãozinho folgado, em determinado momento eu me rendi. Olhei para os lados, meio ressabiado, e mostrei.
Foi aí que o mundo desabou. No justo momento em que estou mostrando meus documentinhos, aparece na janela a mãe das meninas, que, arregalando os olhos, foi logo dizendo: “O que é isso? Que pouca vergonha! Vou contar para sua mãe agora mesmo! Magda e Míriam, para dentro! Este menino não serve como companhia para vocês.”
Eu quase morri de susto. Aliás, hoje penso que meu pintinho deve ter sofrido um abalo sísmico naquele momento, coisa de uns nove na escala Richter. Não sei como não fiquei estéril. Saí em desabalada correria em direção à esquina, virei rapidamente na Contorno, e - tremendo - desabei na calçada. Primeira experiência de exibicionista precoce. Menino de cinco anos. Já taxado de sem vergonha nato. Aí para voltar para casa, a coisa ficou muito complicada. Depois de esperar um bom tempo para que passasse a tempestade, e buscando a pouca coragem que tinha bem lá no fundo, eu fui caminhando com o rosto virado para os muros das casas, até chegar finalmente no portão salvador da minha, subir os degraus da escada do jardim em dois pulos, e desaparecer lá dentro. Devo ter passado uma semana me esgueirando pelas sombras, para poder sair de casa.
Passados uns cinquenta anos, e meditando sobre este grande acontecimento da infância, me assalta uma terrível dúvida: e se as meninas combinaram esta cena com a mãe, só para aterrorizar um pobre garoto bobo?
O dia de feira era um acontecimento importante na semana, nesta cidade e nesta época de vidinha meio morna. Na minha rua era sempre às quintas-feiras. Ela se estendia por dois quarteirões da Santa Rita e mais um tanto da rua Maranhão. Começava já de madrugada, com os caminhões descarregando as barracas e os caixotes. Uma barulheira infernal. Nós gostávamos de ficar apreciando aquele vai e vem de gente, sentados nas muretas das casas, de olho nas meninas que acompanhavam as mães (ou as avós). A Jó me conta que muitas vezes foi com Vó Leonor à feira de manhã, e esta sempre fazia se acompanhar por um secretário (geralmente do Pindura-Saia) que ajeitava as compras dentro de um carrinho de rolimã, e em troca recebia uma gorjeta. Certamente elas passavam pela minha casa, e nenhum de nós poderia sonhar que nossas vidas iriam se entrelaçar no futuro. Engraçado.
Eu gostava muito de uma barraca que vendia queijos do Serro embrulhados em folha de bananeira, e um doce de leite inesquecível. Minha mãe comprava sempre a quantidade equivalente a uma marmita de alumínio, colocava na geladeira, e eu comia em colheradas à tarde. Durava pouco.
Mas, foi nesta mesma feira das quintas-feiras que aconteceu um fato traumatizante. Mancha negra da minha infância, minha experiência precoce de furto. Seria uma vocação ou um acidente de percurso? Como sempre diz o meu amigo José Roberto Dias de Moura, “até hoje nunca alguém quis me corromper...”. Pois é, a história é que eu vivia namorando uma barraca com aquelas frutas importadas maravilhosas (seriam também deliciosas, imaginava eu), e como éramos nacionalistas ferrenhos, importado lá em casa só a velha geladeira GE. Nunca fazia parte da feira semanal uma passada pela tal banca. Aí eu arquitetei, com toda a experiência acumulada em cinco ou seis anos de vida, um golpe a ser dado em cima do barraqueiro. Golpe infalível. Eu iria acompanhar alguma freguesa, como se fosse o filho desta, ficaria olhando as frutas com um olho e o barraqueiro com o outro, no primeiro vacilo deste, pegaria um suculento cacho de uvas argentinas, e daria no pé. Não podia haver falha neste plano. Deve ser por aí que aparecem tantos ladrões neste Brasil.
Planejada a ação, parti sozinho para a empreitada. Fui até a barraca de frutas, fiquei examinando com aparente olhar de intimidade todas aquelas frutas, e saí, como diz a música de Compay Segundo, con su pasito apurado, e coração batendo a umas 200 bpm. Só não contava com o nascente corporativismo. O barraqueiro ao lado achou muito estranho aquele menino sair assim, sem mais esta nem aquela, com um cacho de uva sem embrulhar.
Feita a denúncia, lá foi em meu encalço o infeliz dono da barraca de frutas. E eu sem saber de nada. Fui até o portão da minha casa, sentei-me calmamente, e já me preparava para saborear o fruto do meu saque (literalmente), quando este é arrancado das minhas mãos sem uma palavra. Fiquei paralisado. E ainda por cima me deixou com a boca cheia de saliva. Pode?
Não havia jeito. Chovia, meus pés ficavam molhados. Não que fosse totalmente ruim, andar pela enxurrada nas ruas de pedra, fazer barragens, e soltar barquinhos de papel que desciam a rua até encalhar na esquina, perto da casa dos Gomes Freire.
Mas ir para o Grupo de sapato furado era humilhante. Molhava a meia e dava um certo ar de decadência, com a qual eu não concordava. Minha mãe tinha uma solução providencial para dias de chuva. Colocava os sapatos no forno do fogão para secar, de maneira que cedinho eles estariam prontos para uma nova jornada pela rua Santa Rita Durão abaixo. O único medo que eu tinha é que eles ficassem torrados. Mas, se já eram pretos, pior não poderiam ficar.
Quando eu reclamava de um prego machucando meu pé, minha mãe dizia: “Leva no Barçante”. Seu Barçante mantinha sua banca de sapateiro na própria casa em que morava com a família, ali na rua Cláudio Manuel, e trabalhava com o filho. A gente chegava de mansinho, com o sapato embrulhado em jornal e pedia para consertar. Ele rabiscava qualquer coisa (acho que era o número da minha casa) na sola, e dizia “depois de amanhã”. Não precisava dizer de onde era. Ele sabia. Aliás, essa era uma característica notável daquele tempo. Os meninos não precisavam falar nada, e muitas vezes nem pagar. Depois alguém ia lá e acertava. A gente era conhecido de todo mundo. Eu tenho a impressão que a sociedade funcionava melhor, sem dinheiro. Não tinha problema cambial, nem inflação, nem desvalorização, nem roubo. Era só dizer “bota na conta”, e estava resolvido. Naquela época eu achava que tudo se resolvia num aperto de mão. Nunca tinha visto dinheiro circular. Banco então, nem pensar. Como naquele tempo havia o Banco da Lavoura ali na Praça Sete (o meu padrinho Aristeu até me deu um cofrinho para coletar as raras moedas), para mim esta coisa de dinheiro em banco deveria estar relacionada com fazenda, produção agrícola, sei lá. Quando nós íamos comprar alguma coisa na farmácia do seu Castro (que depois virou Cristo Rei), ali na praça Doze, nem era preciso dizer o nome do remédio. Ele olhava o bilhete da minha mãe, embrulhava e já botava na conta. Fim do mês apareciam as notinhas e um total na caixa do correio, era só passar lá e pagar. Muito tranquilo.
Mas, voltando aos sapatos, quando eles furavam a sola, o que devia acontecer de dois em dois meses, pela atividade insana a que eram submetidos, e chovia, a solução desenvolvida por minha mãe era dobrar umas folhas de jornal e colocar por dentro, para proteger a meia. Então, lá ia eu, pasta de couro nas mãos, em direção ao Grupo, com sapato de sola de jornal. Morria de vergonha. Por que os pais teimam em matar os filhos de vergonha?
No Grupo, escondia os pés. No recreio, nada de ficar mostrando a sola do sapato assim sem essa nem aquela. Se Dona Natália Lessa chamasse para a ginástica, o jeito era alegar resfriado, para ficar só olhando. Já imaginou? Se alguém me vê de sapato com sola de jornal, eu estaria perdido. Hoje penso que era uma solução bastante criativa para o problema dos pés. Os sapatos deveriam ficar mais leves e mais macios do que com sola de couro. As minhas filhas, quando conto isso, acham um absurdo. Opinião de meninas criadas em outro mundo. Shinobu Kasahara, que me contou ter tido esta mesma experiência em Campinas, certamente concorda comigo.
Meus amigos do Rio e de São Paulo sabem que tenho muitas ligações sentimentais com esta cidade turística do Sul de Minas. Digo sempre que ainda vou morar lá. Aliás, até já escolhi o endereço - rua Sabará -, no Jardim dos Estados. Por acaso, o mesmo nome da principal via de Curral d’El Rei, o arraial que deu origem à cidade de Belo Horizonte.
A primeira vez que visitei Poços de Caldas (e também minha primeira viagem na vida), foi aos seis anos de idade. Fui com minha mãe fazer estação de águas, me disseram, e dali passamos por São João da Boa Vista, em direção à Fazenda Ibicoara, em Descalvado.
Muitos anos depois, foi Rogério Martinez, da mesma São João e neto do pioneiro Antônio Rubo, quem me contou as histórias da Fonte Sinhazinha, uma concessão de sua família durante muito tempo. E, mesmo antes disso, levei meu filho, então com dois anos, para andar naquelas charretinhas puxadas a bode, na praça Pedro Sanches, assim como eu próprio havia feito. Poços está no inconsciente coletivo da minha família. Era chique sair de Machado para passar férias em Poços de Caldas, além de visitar a parentada. O Banco Machadense, que foi administrado pelos meus tios Homero e Zito, acabou se fundindo com a Casa Moreira Sales, de Poços, e veio a se tornar o Unibanco.
Foi nesta mesma viagem que minha mãe, preocupada em desinfetar tudo, colocou fogo na banheira do hotel, me deixando boquiaberto. Parece que era um costume dos viajantes daquela época, horrorizados com a proliferação da tuberculose e de outras doenças quase incuráveis. Minha mãe não teve dúvidas, comprou uma garrafa de álcool no Mercado Municipal (onde hoje é a Casa Carneiro), despejou na banheira e acendeu um fósforo. Deve ter sido assim que grandes incêndios aconteceram em Minas. E em Roma.
O primeiro prefeito de Poços, entendido como tal, foi o Dr. Juscelino Barbosa, padrinho de minha mãe, e por quem ela sempre teve uma grande admiração. Ela guardou até o final da vida, como relíquia, uma edição portuguesa luxuosa do livro de Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, que este lhe dera de presente. Ficava exposto na sala de visitas lá de casa, como ainda faz hoje minha irmã Vera Lygia, fiel depositária.
Desta minha primeira viagem a Poços fiquei com três grandes recordações, além do quase incêndio do hotel. Primeiro, as uvas que compramos no Mercado Municipal (de novo, a minha fascinação pelas uvas e os vinhos), e a nossa ida de carro, em estrada de terra, para São João da Boa Vista. Chovia, como só chove naquela região, e ficamos atolados no meio da noite. Não fosse a ajuda de um grupo que voltava de uma pescaria, e nos emprestou umas correntes para passar nas rodas do carro, acho que estaríamos lá até hoje. Numa destas estadias na casa de Rogério e Lourdes, em São João, ele me dizia que estas correntes eram praticamente obrigatórias nos carros daquela época, de outra forma o motorista acabaria atolado.
E esta não foi a única vez que fiquei atolado, eu que nunca fui de sair por aí fazendo enduro. Numa incursão nossa (Lucílio, Zequinha, Flavinho e eu), muitos anos depois, em busca da Fazenda da Capoeirinha, em Alfenas, onde Zequinha nasceu, ficamos atolados várias vezes na estrada que liga Machado a Alfenas, naquela ocasião ainda de terra, sendo preparada para receber o asfalto. Asseguro que não é uma boa experiência.
E a terceira grande recordação de Poços que conservei na lembrança é o sabor horrível daquelas águas sulfurosas. Dizem que fazem muito bem para saúde. Dizem também que a Princesa Isabel se curou com elas. Que por suas qualidades curativas tem a ver com Caldas da Rainha em Portugal. Dizem até que Getúlio Vargas adorava passar uma temporada ali - mas nós sabemos bem que era por outra razão. Pode ser, acredito. Mas, mesmo assim, ainda prefiro garimpar outras alternativas mais simpáticas nas prateleiras da Cantina do Araújo ou do Katarino.
Lá no interior do estado de São Paulo, em Descalvado, muito longe de Belo Horizonte, deixei uma parte importante da minha meninice. Assim como foi para o Hermann, Mathilde e para o George. Como foi também para o Lucílio, e para o Ricardo. É lá onde fica a fazenda Ibicoara, que Mary e Fernando Hoffmann estão restaurando aos poucos.
Quando lá finalmente chegamos eu e minha mãe, depois de toda aquela aventura pelas estradas de terra, fomos recebidos por tia Beatriz, numa formidável baratinha azul (Ford 1929), com dois lugares na cabine, e mais um que surgia ao abrir-se o porta-malas (chamam-no o banco da sogra, com razão). Foi exatamente onde fui acomodado, em êxtase, em meio à bagagem. Senti-me de verdade como se estivesse em Monte Carlo, embora nem soubesse o que era isto. Descalvado era uma pequena cidade de interior, mas muito bem cuidada, limpa, graças talvez à forte imigração italiana nos fins do século XIX (foram cerca de 3.000 famílias entre 1890 e 1910), com a sua ativa Societá Fratellanza Italiana di Descalvado, desmantelada infelizmente durante a Segunda Guerra Mundial, e recriada há poucos anos.
Tio Glenan era um mito em nossa família. Irmão mais velho de minha mãe, formado em medicina na escola da Praia Vermelha, por um mistério insondável (Fernando já tentou me demonstrar que não existe mistério algum) saiu do Rio de Janeiro e foi parar em Descalvado. Ele mesmo gostava de dizer que o critério foi o seguinte: apanhou um trem da companhia Paulista, parou na última estação, desceu, era Descalvado. Lá exerceu a medicina por quase cinquenta anos, encontrou o grande amor de sua vida, Laurinda, que morreu tragicamente aos 23 anos, vítima de uma queda de cavalo, e deixou dois filhos pequenos. Casou-se pela segunda vez com uma cunhada, foi campeão brasileiro de polo, e fazendeiro. Nunca mais saiu de lá.]A fazenda era um sonho para qualquer criança, que tratei logo de explorar nos mínimos detalhes. Em frente à casa, uma alameda com mangueiras e uma jaqueira. Nela ficavam a capela e escola, além da casa do administrador. Atrás da casa, uma piscina com trampolim e tudo. Foi lá, graças à enorme paciência da tia Beatriz, que consegui dar meus primeiros mergulhos e arrisquei nadar sozinho. A única coisa chata, e existe uma foto minha com Ana Rosa que comprova, é que não tendo levado calção - por que, por que? - abriram um armário e escolheram algo que mais se aproximava do meu tamanho: um maiozinho ridículo, e me mandaram vestir. Morri de vergonha. Não contentes com isso, ainda documentaram para a posteridade.
O meu companheiro inseparável na fazenda era o Bastião, filho da Nair. Me levava de carrinho de mão para cima e para baixo, atualizando sobre o que acontecia por ali. Cuidado com as formigas perto da piscina, não passa atrás do Macanudo, não chega perto do Colorado, não chupa manga depois de tomar leite.
De repente, um alvoroço. Lá vinha tio Glenan de espingarda em punho. “Será um ataque de índio?”, pensava eu. Não, era apenas um pobre gambá correndo pelo telhado da casa. De noite, invariavelmente, era ouvir O Direito de Nascer pelo rádio. Talvez daí venha minha completa aversão às novelas televisivas. No domingo, de charrete, lá íamos nós com a Mary assistir missa na fazenda Santana, ali perto. Minha mãe curiosa para conhecer o tal de Fernando, sobrenome alemão, que estava interessado na minha prima. Foi aprovado.
Quando tocava aquele telefone danado, de manivela, era um escândalo. Dizem que a telefonista de Descalvado tinha um código para conseguir que a Mary namorasse com o Fernando disfarçadamente, sem que o tio Glenan ficasse policiando. Filha única, educada no Sion de São Paulo, aquele xodó todo, como é que um sujeito assim sem mais esta nem aquela virava pretendente? Foi preciso muita persistência.
O que eu gostava mesmo, acho que todas as crianças gostam, era de ir para o curral e apreciar a lida do gado. Um gado holandês muito bem tratado, com duas ordenhas diárias, eu ficava horas assistindo aquilo tudo, encarapitado nas cercas das baias.
Outro ponto alto era o pequeno pomar que existia ao lado da casa, com jabuticabeiras enormes e frutos deliciosos. Uma vez, em outra época, eu e a Jó ficamos ali, no maior segredo, só chupando jabuticaba no pé, enquanto a Mary nos chamava e dizia “tragam jabuticabas para fazer geleia”, e eu pensava “só se for por cima do meu cadáver”. Abrimos uma exceção para a Fernandinha, que rapidamente foi içada para uma mureta e começou a apanhar as frutas pretinhas como gente grande. É o sangue. Fernando me jurou que faz parte do projeto de restauração da sede o transplante de velhas jabuticabeiras para este mesmo pomar, que por um descuido foi privado delas. A conferir.
(Nota 5) Agora, uma curiosidade. Este livro também é cultura [risos]. De onde vem este nome tão estranho Ibicoara? Vem de um córrego, afluente do rio Bonito, em Descalvado. Aprendi isto no livro Conheça Descalvado, de Luiz Carlindo Arruda Kastein. E Ibicoara também é o nome de uma cidade na Bahia, na Chapada Diamantina. Nome tupi-guarani.
Isto foi ao final de 1949. Minha irmã Vera Lygia fazia parte da segunda turma da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFMG, e estava se formando em línguas neolatinas. Sempre achei muito bonito dizer isto: neolatinas. Na época, não entendia bem o significado, pensava que fosse alguma coisa relacionada com antropologia, arqueologia, império romano, sei lá. Mas, tinha um orgulho enorme em proclamar que minha irmã era licenciada em línguas neolatinas.
Foi nesta formatura, em sessão solene no prédio rosa da Escola Normal, o mesmo onde muitos anos mais tarde eu suaria frio no exame de admissão ao Colégio Naval, que eu, apenas um menino, ouvi o discurso de mestre Aires da Mata Machado Filho. Nunca havia visto coisa igual. Era o paraninfo da turma. Cercado de grande carinho por parte da congregação e dos formandos, mestre Aires leu o seu texto todo escrito em braille. Achei uma coisa incrível, porque eu não entendia como era possível ele ler o discurso, já que olhava diretamente para o auditório e apenas corria as mãos por cima de alguma coisa que tinha a aparência de um grosso livro. Um verdadeiro mistério - para mim.
Gosto muito daquele poema que Carlos Drummond de Andrade dedicou-lhe, publicado no “Estado de Minas” em 24 de fevereiro de 1989 - data em que completaria 80 anos, e que termina assim:
"ó Ayres
da verde mata
do machado de prata portuguesa
legítima
onde se oculta um brilhante
com todos os fogos tranquilos