Raymundo Silveira
DE MÉDICOS E DE LOUCOS
Contos
Menção Honrosa no Concurso Paul Harris – 2007
Copyright © 2009 by Raymundo Silveira
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ÍNDICE
PRIMEIRO SOCORRO
A BIÓPSIA HEPÁTICA
DE MÉDICOS & DE LOUCOS
AMADADAMA
CLONE FANTASMA
ADORO CORAÇÕES FEMININOS
EU, IMORTAL
O FUTURO A DEUS PERTENCE
O ESQUERDISTA
O SHOW DA MORTE
ILHA DA PÁSCOA
PRIMEIRO SOCORRO1
“Filioli mei.” 2
[Vulgata, “Gálatas” 4.19]
Filho engasgado com grão de feijão. Asfixiado. Unhas, lábios, extremidades da cor de violeta. Gritos desesperados, em vias de contagiá-lo. Por sorte é médico. Por azar, dermatologista. Como se, dono da Amazônia, estivesse perdido em sua selva. Felizmente, tomara curso de primeiros socorros havia poucas semanas. Sai do meio, me dá o menino. Arrebata do colo e abate-a com um sopapo. Vira-se para a empregada. Me traz um canudo... depressa... Então me dá um tubo vazio... qualquer troço parecido, senão eu te mato... Serve, mas tira a merda desta linha. Me ajuda a pôr na mesa e traz um travesseiro e uma caneta com tampa de ponta fina. Se não tiver, faca, tesoura, canivete, gilete... o cão, contanto que corte. Correndo. A criança agora respira, mas com dificuldade. Toma-a nos braços e corre; elevador na pqp. Depois de doze saltos mortais, o térreo; entra na picape, entrega para a babá e dá partida. Hora do rush. Ao sair do edifício, engarrafamento. Apitos e sibilos vindos do fundo de um abismo se misturam. Vontade louca de abrir também uma ferida na traqueia do trânsito congestionado. Desejo enorme de voltar para o tempo em que jamais andou a cavalo. Entre um carro e outro mete o dele raspando o para-lama do detrás. Mais apitos... mais sibilos. O motorista atingido abre a porta, desce, mas o barulho torrencial do buzinaço neurótico o atordoa e tem de voltar. O da frente rola alguns metros e ele cola no para-choque. O farol fecha; o alarme dispara. Vem um trem. O pequeno respira menos: coágulos obstruem o carretel de linha. Tudo cheira a impossível. Compulsão de pensar no menino morto, velório, pêsames... O sepultamento dos pais não sai da mente. Pressente que ambos estão ali, espectrando a sua aflição. Se esforça para afastar essas ideias. A cabeça não tem espaço para comportar outras. Luta para arrancar, a pinça de sobrancelhas, pensamentos lubrificados com a cera das almas. Medo de pânico. Como ele está? Responde, como ele está? Como se a ama fosse uma colega. O silêncio dela, um soluço de tá morrendo... Vai enlouquecer se não falar com alguém: pedir socorro, nem que seja ao satanás. No Deus há muito deixou de acreditar. Mesmo assim já tinha se valido. Inútil... Arrependido de ter perdido a fé. Cata o celular; em lugar nenhum. Desce e percorre a fileira de automóveis: pelo amor de Deus, um celular... Nem se lembra de que acabara de dispensar o Seu auxílio. Semblante de mendigo. Zero guiadores acodem; todos disfarçam; fingem não perceber. O trem acaba de passar; o sinal abre. Volta correndo para o volante. A fila de carros mal se mexe. Quem inventou este diabo tinha de fazê-lo voar. Pelo menos, saltar. Pensa em cangurus. A pancada no para-choque traseiro agora foi percebida. O dono para e quer descer. Dá marcha à ré, bate no detrás, engata a primeira e tromba de novo, com mais força. O outro, com medo, não reage. A fila anda um pouco mais depressa. Tem de entrar à direita; derruba um ciclista vindo na contramão. Não olha pelo retrovisor. A toda... Próxima rua de mão dupla. O tráfego flui devagar. O renque do lado de cá não tem fim. Nem começo... Meu filho tá morrendo, me deixem passar, diz em altos brados como se pudessem escutar. Pede para entrar; o primeiro não olha; o segundo mostra o dedo; o terceiro para; entra sem suspeitar agradecimento. Sempre colado no da frente. Não buzina: o garoto já “apita” cada vez mais ligeiro. Uma quentura molhada se espalha pela bunda. Pensa em urina ou fezes; forçando-se, passa a mão e olha: é sangue. Sangue do garoto. Pânico iminente. Vontade de voar, de gritar, de super- homem. Precisa se controlar. Não vai conseguir... Os sinais fechados sempre foram as paradas dos calhambeques coletivos onde voltava pra casa, morto de sono, fome e cansaço, quando morava na miséria. Agora são estações de um comboio a vapor a caminho do inferno. Esperança verde em pelo menos um. Parado no vermelho, louco para avançar por entre os veículos trafegando no cruzamento. De repente, dores e queimores no peito; falta de ar; friúmes. Tremuras, endurecimento das carnes. Solta o cinto e se atraca com o volante. Vai desfalecer. Aperta o coração com a mão direita, sentindo parar. Tem certeza de que alguma coisa ignorada jamais será a mesma. Nunca mais, Nunca mais, Nunca mais... O motor a diesel, em ponto morto, repete sem cessar... Olha o pequeno e uma força sobre-humana emana da meia-luz daquele rosto de anjo se apagando. Com um suspiro de meio-alívio avista a clínica. Estaciona num sei-lá-onde, desce, retoma a criança nos braços, corre para a recepção, entrega a não-sei-quem, e cai.
A BIÓPSIA HEPÁTICA
“Quid tibi cum pelago? Terra contenta fuisses.” 3
[Ovídio, Amores 3.8.49]
Tudo para o sucesso. Experiência revolucionária. Precisavam de voluntários, e eu de prestígio. Tinha os pré-requisitos: juventude e antecedentes clínicos. Contaminado pelo vírus, me curei. Ofereci-me. Meu fígado seria submetido a uma biópsia e pronto, estaria famoso. Três médicos mudaram a minha vida: o doutor Amazeus, a doutora Águeda e o doutor Herculano. A médica era quem fazia as biópsias; estava quase sempre ao meu lado. Nem bonita, nem feia. Cabeça pequena, nariz aquilino, lábios proeminentes. Olhos bem abertos e vigilantes espreitavam presas camufladas. Empunhava um bisturi com mãos tão vigorosas que pareciam garras. “Lamento, o material resultou inadequado. Temos de fazer nova biópsia”. Tive medo. Vontade de desistir. A vaidade venceu. Ter o meu nome na mídia do mundo inteiro. Pioneiro. Arriscou a vida pelo bem-estar dos semelhantes. Grande benfeitor da humanidade. Meu nome jamais esquecido. Operação complicada. Várias tentativas frustradas antes de a agulha acertar o fígado. Muita dor. Via tudo pelo ultrassom, mas não entendia. Comentários assustadores de outros médicos: retire e tente de novo; mais para a esquerda; assim não, vai perfurar a artéria; risco de hemorragia interna; melhor suspender... Não precisou falar. Um minuto de fisionomia diz mais que arrobas de palavras. O hálito da médica recendia a fracasso. “Por favor, me poupe, doutora! Não quero ouvir explicações...” Estava disposto a ser herói, não cadáver. Daria tudo para ser famoso, mas preferia a insignificância de um zémané em cima do chão, à notoriedade de cem mil Pelés dentro dum caixão... “Mas...” “Não tem mas, doutora, já escutei mas demais. Aqui termina a minha... ‘colaboração com a ciência’...”. “Que tal ganhar trinta mil dólares?” “Quê?” “Isso mesmo, que tal trinta mil dólares em troca de mais uma tentativa?” Eu ganhava trinta mil dólares... por ano. “Por que me pagariam isso se já me submeti a duas de graça?”. “O senhor era voluntário. Não precisava saber da existência de um Fundo Internacional. O interesse pelo seu fígado é evidente: ignoramos outro caso de cura da hepatite C”. Pensei pouco: “dinheiro antes, OK?”. “OK”. “Promete depositar pessoalmente na minha conta?”. Prometeu. A biópsia hepática é um procedimento relativamente simples. Guiado pelo ultrassom, o operador introduz, através da pele, uma agulha fina que corta ou aspira uma quantidade mínima de fígado para exame microscópico. Anestesia local. Foi assim nas duas ocasiões anteriores. Desta vez diferente. Por causa da ameaça de complicações durante a segunda tentativa, decidiram pela anestesia geral. Ao acordar me vi só; pés e mãos atados às grades do leito através de correntes. Dores terríveis no lado direito da barriga e um cheiro de terror. Uma gaze ensopada de sangue cobria o local. Várias horas nessa situação. Mais tarde entrou a doutora Águeda e alguns auxiliares. Um deles tomou meu braço, puncionou uma veia e instalou um soro. Só lembro até aí. Ao recobrar a consciência me encontrava num ambiente estranho; provavelmente extraterrestre, pensei. Pessoas esquisitas murmuravam palavras ininteligíveis e se movimentavam em meu redor. Dia e noite não havia. Outros operados me olhavam curiosos e comentavam algo entre si. Todos vestidos de branco. Personagens de filmes sobre vida após a vida. Dores insuportáveis. Curativo ensanguentado. Gritava muito, e só um desespero mudo me escutava. Sempre seguida de alguns homens, entrava, em curtos intervalos, a doutora Águeda. Não mais anestesia: contido pela força bruta. A médica arrancava o curativo e introduzia um ferro muito longo. Demorava-se a vasculhar minhas entranhas. Ao terminar, trazia fragmento púrpura gotejando sangue. Cobria apressadamente o local e saía me deixando apavorado e desprotegido. Não sentia fome, mas um doloroso vazio no estômago reclamava alimento. Como se adivinhasse, alguém pôs na minha boca um canudo do qual sorvi um líquido de sabor indeterminado... Um gosto amargo de nunca mais, talvez... Mal distinguia a Águeda, começava a gritar. “Não grite! Será melhor pra você. Não tema. O fígado será preservado. Só intervimos porque estamos certos da regeneração. Seus gritos não serão ouvidos. Esta sala é à prova de som. Herculano, dê-me a broca saca-bocados.” Depois fiquei sabendo, através deste médico: já havia mais de trinta dias desde a terceira intervenção. Não me recordo da sessão de tortura seguinte. Desfaleci, mal vi entrarem a doutora Águeda e sua equipe. Despertei. Doía como nunca. Vi uma só pessoa. “Por favor...” “Não fala! Meu nome é Herculano. Estou aqui para te ajudar.” Não acreditei: fingi. Nada a perder. Graças a ele fiquei sabendo que me encontrava no cimo de uma montanha. Que um indivíduo de nome Ernesto me acorrentara a mando de outro médico, o doutor Amazeus, de cujo fogo sagrado eu teria me apropriado. Decerto um louco ou me confundira com um homônimo. Disse mais: a farsa da pesquisa fora montada por Amazeus aproveitando a minha ambição por fama e dinheiro e a da médica por reputação profissional. “Qual o seu interesse em me ajudar?” “Dediquei-me a aventuras desta natureza ao concluir doze importantes empreendimentos. Ao roubares o fogo que o Amazeus guardava só para ele, passaste a representar o ideal humano em busca de conhecimento... ânsia de curiosidade. Ao compartilhares isto com os teus semelhantes te tornaste símbolo do progresso humano. Por isso vou te libertar. Só não sei em quanto tempo.” “Mas eu não roubei fogo algum...” “Que dizes?” “Bem... desculpa... roubei sim... Não o considerava tão importante.” “Então, confia em mim. Não tens alternativa.” E saiu sem se despedir.
DE MÉDICOS & DE LOUCOS
“– Una littera plus sum quam medicus.
–Tum tu mendicus es?”4
[Plauto, “Rudens” 1304]
Chegou em cima da hora para dar o primeiro plantão no hospício. Ainda não era doutor. Faltavam seis meses para se formar. Era baixinho, aloirado, brancoso, sardento, nariz arrebitado, narinas de bovino. Feinho. E muito agitado também. Falava demais. Misturava palavras e engolia sílabas, como se quisesse dar vazão ao caos de ideias que passava por sua cabeça. Por isso, o porteiro pensou que se tratava de um dos pacientes. Nunca de um curador deles.
– Por onde você passou?
– Ainda não passei. Estou chegando agora!
– Veio sozinho? Não tem acompanhante?
Avermelhou-se o baixinho:
– O que é isso amigo? Sou médico e...
– Sei. Aqui tem de tudo: médicos, generais, deputados, senadores. Até Imperadores.
– Isso é um absurdo! Um desacato! Posso provar que...